Endometriose e Stress – que relação?

A dor e infertilidade são dois dos mais significativos sintomas da Endometriose. No entanto, fazem apenas parte de um grande quadro de sintomatologia que se relaciona e faz desta doença das mais complexas da atualidade, influenciando a vida das mulheres de formas muito distintas.

Embora a sua origem ainda não seja totalmente conhecida e apesar de existirem várias teorias, sabemos que a Endometriose causa dores incapacitantes e, por consequência, muito sofrimento para as portadoras. Este sofrimento tem também repercussões nas suas vidas, com o aparecimento de sintomas de ansiedade, depressão ou stress que se relacionam com o impacto negativo da doença em todas as áreas da vida, incluindo: física, psicológica, familiar, sexual, profissional e social.
No entanto, o stress é, não só uma consequência, mas também uma das causas do agravamento da própria doença. Num estudo realizado muito recentemente com ratos, após serem induzidas células de Endometriose e depois de sujeitos a um teste de stress, observou-se um aumento das lesões de endometriose, um aumento generalizado da inflamação do organismo assim como alterações no funcionamento do sistema imunitário (Green, 2017). Ou seja, a Endometriose pode não só levar a níveis aumentados de stress, como pode agravar-se devido ao stress, levando a um ciclo vicioso de dor – stress – aumento da dor – aumento do stress (Faith, 2014). Entender estas relações de causa/efeito entre o stress e a Endometriose poderá ser extremamente útil a fim de que sejam identificadas estratégias terapêuticas para o controlo do stress que, consequentemente, permitam retardar a progressão da doença.

De acordo com a Fundação Portuguesa de Cardiologia (2017), “o stress é parte integrante da vida e não representa algo negativo em si mesmo: a ansiedade que provoca pode até ser saudável, já que impele muitas situações a avançarem e a resolverem-se.” O difícil é saber quando é que o stress passa de uma fase dita normal (em que o hipotálamo e a hipófise avisam as diferentes zonas do corpo de que um perigo se aproxima e as fazem reagir, através de substâncias químicas como o cortisol ou a adrenalina) para a fase extenuante em que o grau de stress está a atingir o seu máximo e o risco de ficarmos doentes aumenta.

Sendo a Endometriose uma patologia caracterizada por sintomatologia dolorosa e crónica localizada – maioritariamente – na região pélvica, causando assim perda na qualidade de vida e provocando um estado de stress prolongado. Desse modo, um tratamento médico clínico e/ou cirúrgico não é suficiente para compensar as necessidades das mulheres com Endometriose. Nesse sentido, a atenção dispensada às mulheres com Endometriose, não deverá apenas ser focada na doença, mas na mulher como um todo, ou seja, as mulheres com Endometriose devem ter um atendimento médico pormenorizado, tendo em vista os problemas emocionais, sexuais e sociais que a doença causa, juntamente com um acompanhamento psicológico, que deve ser considerado uma componente essencial para o sucesso do tratamento. Por outro lado, entender o papel do stress na progressão da Endometriose poderá levar ao uso de técnicas de gestão do stress e de controlo de sintomas como a dor e a inflamação (Green, 2017).

Então o que pode fazer a mulher com Endometriose que a ajude a reduzir os níveis de stress a que está exposta e permitir assim que o seu próprio organismo reduza as respostas inflamatórias ao stress?
Antes de mais nada é importante perceber qual a fonte de stress – é a doença em si própria e as consequências que dela surgem? Ou são outros fatores como o excesso de trabalho e responsabilidades, preocupações económicas ou outros?
A influência da alimentação é um fator mais do que estudado – sabemos que há alimentos mais “inflamatórios” e stressores do que outros e que, por isso, devemos evitar: as gorduras, o açúcar, o café e o álcool. Por outro lado, o exercício físico moderado e regular pode atuar como um ótimo relaxante do organismo, aumentando a sensação de bem-estar (devido à produção de endorfinas) (FPC, 2017). Cada mulher deve escolher a forma de exercício com a qual se sente mais tranquila e relaxada: natação, ioga, pilates, dança, corrida ou mesmo uma simples caminhada de 30minutos por dia.

Dormir bem, ter uma vida sexual satisfatória, manter contactos com os amigos e restante rede social, ter objetivos de vida realistas, são alguns dos pontos essenciais para mantermos controlados os nossos níveis de stress.
Falar com alguém sobre o que sente. Podem ser amigos, pessoas que a conhecem bem. Podem ser profissionais como psicólogos que a poderão não só ouvir, como também orientar no sentido de encontrar as melhores estratégias para gerir os seus sentimentos e emoções. Podem ser pessoas desconhecidas – às vezes é melhor falar com quem não conhecemos, certo? O telefone, o email, as mensagens privadas podem ser ótimas ferramentas para falar sobre aquilo por que está a passar. Um dos objetivos da MulherEndo passa por aqui: ouvir.

Artigo: Sandra Pereira e Fátima Silma
Revisão: Susana Fonseca

Referências:
Faith, L. J. (2014). Stress and Endometriosis – A vicious cycle? Disponível em: http://lisajfaith.com/stress-and-endometriosis-a-vicious-cycle-%E2%80%A8/
Fundação Portuguesa de Cardiologia (2017). Stress. Disponível em: http://www.fpcardiologia.pt/saude-do-coracao/factores-de-risco/stress/
Green, D. C. (2017). Stress affects endometriosis negatively. Disponível em: https://www.endonews.com/stress-affects-endometriosis-negatively