Endometriose e Suicídio

Fonte: http://www.hormonesmatter.com/endometriosis-suicide/
Escrito por: Philippa Bridge*
Tradução: Dália Almeida

Era uma manhã como as outras. Estava a beber chá enquanto verificava os meus emails e as mensagens no Facebook, antes de começar o meu dia de trabalho. Uma notificação do Facebook surgiu alegremente na minha página “É o aniversário da sua amiga. Deseja-lhe um feliz dia de aniversário. Ajuda-a a celebrar!” De repente o meu dia tomou um caminho diferente. Eu acabei por escrever na página da minha amiga mas ela não iria ver a minha mensagem. Suicidou-se há 8 meses por causa de dores pélvicas diárias, severas e crónicas causadas pela Endometriose.

A história da minha amiga não é, infelizmente, assim tão incomum. Sabemos através de estudos que a incidência da depressão e ansiedade em mulheres com endometriose é alta. Nenhum estudo mais formal abordou até hoje a incidência de suicídio neste grupo da população, mas num inquérito promovido pela Endometriosis UK, foi possível verificar que 25% das mulheres com endometriose já pensaram em suicídio. Eu conheço pessoalmente algumas destas histórias trágicas.

A minha amiga, como muitas mulheres com endometriose, esperou muito tempo até ter um diagnóstico, e depois foi sujeita a inúmeros tratamentos ineficazes. Finalmente acabou por fazer uma cirurgia para tratar a doença e uma histerectomia, mas as complicações dessa cirurgia fizeram com que ficasse com dores diárias muitos fortes. Embora os melhores cirurgiões continuem a seguir as suas doentes no pós-cirúrgico, ajudando-as a lidar com as dores, outros lavam as suas mãos sobre este assunto. A minha amiga lutou para encontrar médicos que a ouvissem e a ajudassem, mas no fim ficou sozinha com o seu sofrimento diário e no limite não conseguiu mais lidar com isso. Como foi dito pela Nancy Petersen, conhecida defensora da divulgação da endometriose e enfermeira registada: “A endometriose não é fatal, mas o desespero pode ser.”.
Temos um longo caminho pela frente para a mudança na forma como o nosso sistema de saúde lida com a endometriose e que actualmente falha no apoio dado às mulheres com esta doença. Desde enormes atrasos no diagnóstico, até à constante falta de formação dos médicos sobre esta doença, ao péssimo acesso a tratamento multidisciplinar; todas estas áreas e outras precisam de ser melhoradas. No entretanto, as mulheres continuam a sofrer e a sentir que a sua qualidade de vida nunca irá melhorar, e a sentirem-se impotentes e deprimidas sobre o seu futuro.
Quero apelar às mulheres que se sentem muito deprimidas ou com pensamentos suicidas a falarem com alguém sobre o que estão a sentir. Não é um sinal de fraqueza dizer que estamos em dificuldades, deprimidas ou assoberbadas. Muitas mulheres com endometriose lidam com um conjunto enorme de problemas no seu dia-a-dia; e a maior parte dos seres humanos tem o seu limite de quantidade de problemas com que consegue lidar. Por favor confidenciem a uma amiga, amigo, membro da família ou ao médico. Se preferir falar com alguém que não conhece procure AQUI uma lista das linhas de apoio disponíveis. A sua família ou amigos não a querem perder.
Se é amigo ou familiar de alguém que lhe disse estar com pensamentos suicidas ou que tenha expressado pensamentos suicidas, por favor insista com ela para que procure ajuda profissional mesmo que não queira. Pode ajudar simplesmente ouvindo de forma empática e sem julgamentos, mas todos os que atravessam uma crise necessitam de ajuda profissional. Se precisar de ajuda na procura de um professional adequado pode contactar a associação local de apoio a doentes com endometriose e centros de apoio em casos de potencial suicídio.
Apesar da luta diária da minha amiga, ela sempre teve uma palavra amiga e positiva para os outros. Assinava a maior parte das suas mensagens para mim com a expressão “abraço carinhoso”. Em sua memória, gostaria de estender esse abraço carinhoso a qualquer pessoa que luta com uma depressão em resultado de dor ou doença.

* Philippa Bridge-Cook (PhD) é uma cientista e escritora que trabalha actualmente como Directora Executiva da Endometriosis Network no Canadá, um organização sem fins lucrativos cuja missão é fornecer educação, divulgação, apoio e esperança às doentes de endomentriose. Philippa trabalhou anteriormente na Luminex em Toronto em diagnóstico molecular e como consultora para o Scientific Insights Consuting G, em muitas áreas diferentes da medicina incluindo a farmacogenética, diagnóstico, câncer, doenças infecciosas e endocrinologia. A experiência académica da Pilippa inclui um Doutoramento em Genética Médica e Microbiologia da Universidade de Toronto.