Endometriose – A influência das substâncias disruptoras endócrinas

Como é já do nosso conhecimento, a Endometriose trata-se de uma doença dependente de estrogénio. Neste sentido, têm sido levantadas algumas hipóteses relativas à sua relação com substâncias consideradas disruptoras endócrinas, como as dioxinas, os policlorobifenilos, o bisfenol A ou o dietilestilbestrol. Estas substâncias, presentes em objetos do quotidiano e em alimentos consumidos diariamente, têm um efeito tóxico no organismo e tornam-no mais vulnerável ao desenvolvimento de várias doenças, incluindo a Endometriose. Desde muito cedo que o ser humano se encontra em risco de contaminação, sendo que o contacto com estas substâncias começa ainda durante a gestação: num estudo recente com sangue proveniente do cordão umbilical de recém-nascidos, foram identificados 287 químicos diferentes, não tendo sido processada qualquer amostra de sangue sem contaminantes (EWG, 2005). Tal facto assume maior gravidade devido à imaturidade do corpo de uma criança, que não consegue metabolizar, desintoxicar e eliminar toxinas de forma tão eficaz como o corpo de um adulto (Usman & Ahmad, 2016).

Algumas destas substâncias, como as dioxinas, são um subproduto acidental de processos industriais comuns onde há a utilização de cloro ou derivados. Atualmente são conhecidas mais de 70 variedades destes contaminantes ambientais, obtidos através da incineração de resíduos sólidos urbanos ou da produção de pesticidas e herbicidas e que são considerados os produtos mais tóxicos alguma vez conhecidos. A alimentação consiste na maior fonte de exposição do ser humano às dioxinas, verificando-se que os animais que nos servem de alimento consomem frequentemente rações contaminadas. Numa situação de exposição crónica, existe uma alteração da resposta imunitária e uma inibição da ação da progesterona, o que favorece um processo inflamatório que propicia o desenvolvimento e progressão da Endometriose (Bruner-Tran & Osteen, 2010). De facto, devido à influência destas substâncias no sistema endócrino e imunitário, verifica-se que a puberdade pode ser atingida de forma precoce, o que num quadro de Endometriose é preditor de maior incapacidade na idade adulta (Endometriosis Association, 2009).

Ao contrário das dioxinas, os policlorobifenilos, ou PCB, não são um subproduto acidental, mas sim um composto produzido pelo ser humano para utilização maioritariamente industrial. Por serem compostos não inflamáveis com elevada estabilidade térmica e capacidade de isolamento, os PCB foram utilizados em larga escala em equipamentos elétricos, tendo sido considerados potenciais carcinogénicos e a sua utilização proibida pela União Europeia em 1986 (Agência Portuguesa do Ambiente, 2010). Com uma toxicidade semelhante à das dioxinas, os PCB afetam o sistema reprodutivo, perturbando a fisiologia endometrial relacionada com a patofisiologia da Endometriose (Bruner-Tran & Osteen, 2010; Wei et al., 2016). Tal como sucede com as dioxinas, a ação dos PCB promove uma inflamação crónica, levando simultaneamente a um aumento da síntese do estrogénio e a uma diminuição da ação da progesterona, facilitando assim o desenvolvimento da Endometriose (Endometriosis Association, 2009).

O bisfenol A, ou BPA, é um dos mais abundantes compostos químicos fabricados pelo homem, sendo usado no fabrico de vários materiais plásticos de utilização comum, como copos de bebidas, talheres descartáveis ou caixas para armazenamento de comida. O ser humano contacta muito frequentemente com esta substância, e numa investigação recente com amostras de urina de cidadãos norte-americanos (Calafat et al., 2005), esta foi detetada em 95% dos casos em estudo. A exposição a doses elevadas deste estrogénio sintético é tão mais problemática quanto mais precoce for, estando relatadas alterações funcionais e morfológicas graves, tanto no homem como na mulher. Em mulheres adultas sujeitas a uma forte exposição durante a gestação, verificou-se com frequência um quadro de infertilidade relacionado com lesões endometriais (Maffini et al., 2006). Apesar de inúmeros estudos apontarem nesse sentido, só a partir de 2012 passou a ser proibida a utilização de BPA no fabrico de biberões e tetinas para bebés, e mais tarde, em 2013, no fabrico de embalagens de leite em pó (Usman & Ahmad, 2016).

O dietilestilbestrol é um estrogénio sintético que foi usado durante vários anos como medicamento para reduzir o risco de complicações na gravidez. Nos Estados Unidos, este deixou de ser usado a partir de 1971 pela sua aparente ineficácia, tendo mais tarde sido associado a diversos problemas de saúde do foro ginecológico em jovens expostas ainda na barriga das suas mães (Hoover et al., 2011). Esta substância é considerada uma “bomba relógio” pelos seus efeitos a longo prazo, e até em gerações não diretamente expostas à mesma. Os estudos das consequências desta substância em fetos do sexo feminino apontam para uma relação entre a exposição in utero e um maior risco de desenvolvimento de lesões endometriais, diferentes tipos de cancro, menopausa antecipada e infertilidade (Jishi & Sergi, 2017; Wei et al., 2016).

Há ainda muito a aprender para que se possa chegar a um melhor entendimento da Endometriose. Um melhor diagnóstico, tratamento e prevenção deverão ser objetivos de toda a comunidade científica. Apesar das numerosas associações entre a Endometriose e estas substâncias disruptoras endócrinas, não é ainda possível indicar uma relação inequívoca. Os estudos efetuados não apresentam resultados consistentes, o que é explicado em parte pelo facto de esta doença apresentar várias manifestações, podendo afetar diversos órgãos de formas distintas e em diferentes graus de gravidade (Upson et al., 2014). Por último, embora ainda não exista na comunidade científica um consenso em relação à etiologia e à patofisiologia da Endometriose, é inegável a influência destas substâncias: a bioacumulação destes produtos altamente tóxicos tem um efeito nefasto no organismo de forma multifatorial, facilitando o surgimento e a progressão desta doença.

Referências:
Agência Portuguesa do Ambiente, Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território (2010). Plano Nacional de Descontaminação e Eliminação de PCB. Disponível em https://www.apambiente.pt/_zdata/Politicas/Residuos/Plano%20Descontaminao%20PCB_APA_final.pdf
Bouquet de Jolinière, J., Ayoubi, J. M., Validire, P., Goguin, A., Gianaroli, L., Dubuisson, J. B., Feki, A., & Gogusev, J. (2012). Identification of displaced endometrial glands and embryonic duct remnants in female fetal reproductive tract: possible pathogenetic role in endometriotic and pelvic neoplastic processes. Frontiers in Physiology, 3, 1-7
Bruner-Tran, K. L., & Osteen, K. G. (2010). Dioxin-like PCBs and endometriosis. Systems Biology in Reproductive Medicine, 56, 132-146
Calafat, A. M., Kuklenyik, Z., Reidy, J. A., Caudill, S. P., Ekong, J., & Needham, L. L. (2005). Urinary concentrations of Bisphenol A and 4-Nonylphenol in a human reference population. Environmental Health Perspectives, 113, 391-395
Endometriosis Association (2009). Endometriosis and Dioxins: Information for physicians, nurses and other healthcare professionals. Disponível em http://www.endometriosisassn.org/pdfs/Endo-and-Dioxins.pdf
Environmental Working Group (2005). Body Burden: The Pollution in Newborns. A benchmark investigation of industrial chemicals, pollutants and pesticides in umbilical cord blood. Disponível em http://www.ewg.org/research/body-burden-pollution-newborns
Hoover, R. N., Hyer, M., Pfeiffer, R. M., Adam, E., Bond, B., Cheville, A. L., Colton, T., Hartge, P., Hatch, E. E., Herbst, A. L., Karlan, B. Y., Kaufman, R., Noller, K. L., Palmer, J. R., Robboy, S. J., Saal, R. C., Strohsnitter, W., Titus-Ersnstoff, L., & Troisi, R. (2011). Adverse Health Outcomes in Women Exposed In Utero to Diethylstilbestrol. The New England Journal of Medicine, 365, 1304-1314
Jishi, T. A., & Sergi, C. (2017). Current perspective of Diethylstilbestrol (DES) exposure in mothers and offspring. Reproductive Toxicology, 71, 71-77Maffini, M. V., Rubin, B. S., Sonnenschein, C., & Soto, A. M. (2006). Endocrine disruptors and reproductive health: The case of Bisphenol-A. Molecular and Cellular Endocrinology, 254-255, 179-186
Sampson, J. A. (1940). The development of the implantation theory for the origin of peritoneal endometriosis. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 40, 549-557
Upson, K., Sathyanarayana, S., De Roos, A. J., Koch, H. M., Scholes, D., & Holt, V. L. (2014). A population-based case–control study of urinary bisphenol A concentrations and risk of endometriosis. Human Reproduction, 29, 2457-2464.
Usman, A. & Ahmad, M. (2016). From BPA to its analogues: Is it a safe journey? Chemosphere, 158, 131-142
Wei, M., Chen, X., Zhao, Y., Cao, B., & Zhao, W. (2016). Effects of prenatal environmental exposure on the development of endometriosis in female offspring. Reproductive Sciences, 23, 1129-1138