Progressão da doença

É absolutamente necessário chamar a atenção para as consequências da progressão da doença mais grave. De facto, não sendo a Endometriose uma doença maligna, as formas mais graves da doença comportam-se como um cancro, invadindo a pélvis.

No entanto, no caso particular dos endometriomas (quistos de Endometriose dos ovários), parece haver uma correlação evidente com um tipo particular de cancro do ovário, chamado carcinoma de células claras. Por isso, o tratamento deste tipo de Endometriose é cada vez mais necessário. Uma atitude expectante perante quistos de Endometriose do ovário pode ser comprometedora.

Os tumores recto-vaginais podem perfurar o intestino, com peritonites (infecções abdominais graves) que necessitam de intervenção cirúrgica urgente.

A invasão lenta e progressiva dos ureteres leva à ausência de funcionamento renal, com as consequências inerentes.

Os tumores vesicais (bexiga), se de implantação muito baixa, numa zona designada trígono, podem pôr em perigo ambos os rins e são de resolução muito complexa.

As formas diafragmáticas/pleurais levam ao colapso sucessivo do pulmão.

E, por último, tudo leva a situações de infertilidade se não tratadas a tempo, por invasão e oclusão das trompas e pelo processo inflamatório local.

As formas ováricas da doença diminuem progressivamente a capacidade ovocitária para a reprodução.

Ainda hoje é possível ouvir muitos médicos dizer a doentes de Endometriose frases do tipo “engravide que isso passa…!” quando justamente essas doentes já não o conseguem fazer.

Por outro lado, à medida que a doença se torna mais agressiva e mais precoce, numa sociedade ocidental onde as mulheres colocam em primeiro lugar a sua carreira e adiam o seu planeamento familiar para a década avançada dos 30 anos, isto é claramente uma contradição.

Mas o pior é que nós próprios estávamos convencidos de que a gravidez protegia a progressão da doença. Contudo, a nossa experiência apresenta já três casos de perfuração intestinal com peritonite grave durante a gravidez e começam a surgir artigos que indicam também neste sentido.

Dr. António Setúbal – Ginecologista