Entrevista Dr. António Setúbal

O Dr. António Setúbal licenciou em medicina em 1981, pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Ocupa o cargo de Director do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital da Luz – Lisboa, é Co-responsável pelo Departamento da Cirurgia laparoscópica e Cirurgia Minimamente Invasiva do Hospital da Luz, Co-responsável do Departamento de Cirurgia Robótica do Hospital da Luz – Lisboa e Membro da Comissão de Educação, Formação e Investigação (CEFI) do Hospital da Luz- Lisboa. Para além do seu extenso currículo é ainda Professor do IRCAD / EITS – Universidade de Estrasburgo – França e Professor (Faculty) do SURGERY U – AAGL (Advancing Minimally Invasive Gynecology Worldwide) – EUA

Podem conhecer um pouco mais sobre o seu extenso currículo AQUI

A área da medicina é uma das mais exigentes a todos os níveis. Como e quando soube que esta era a sua área de eleição em termos profissionais?
Foi sempre uma dicotomia da minha vida. Em jovem, na minha terra, ajudava os médicos no trabalho hospitalar. Sem dúvida inspirado pelo gosto pela medicina do meu pai. Paralelamente, a cultura, a arte, a política, fazia parte do meu quotidiano (também meu pai – a minha referência). Namorava cinema, literatura, música, bebia tudo o que podia. Lisboa tornou esta dicotomia maior. Quase um fosso. Estudava Medicina. Estudava Cinema, Arte e Música. Fiz rádio (até na atual Antena 1), jornalismo (até no início da “Grande Reportagem” eu estive). Convivia com músicos e música (fiz os primeiros vídeo clips dos Sétima Legião). Tertuliava com escritores. Conhecia um mundo palpável por poucos, em pessoa (Francis Ford Capola, Robert De Niro, Wim Wenders, …). Oscilava. Marguerite Duras quase me roubou para a escrita e o mundo do cinema.
O Dr. Harry Reich resolveu, sem saber, a direção da encruzilhada. Com a sua pioneira histerectomia laparoscópica, Medicina, ginecológico, cirurgia, laparoscopia.

Porquê a especialidade de Ginecologia?
A explosão da laparoscopia com Harry Reich e com Arnaud Wattiez entre outros, ligados ao meu gosto pela cirurgia, tornaram mais fácil a minha decisão pela Ginecologia. Sabia que essa seria a especialidade para a desenvolver.

Como é que a Endometriose entrou na sua vida e se tornou a sua área de trabalho principal?
Como a de todos os pioneiros da Laparoscopia. O aumento exponencial de uma patologia tão difícil, entre mulheres tão jovens, que ninguém queria tratar pelo grau de dificuldade que apresentava, acabou por atirar quase todos nós para essa patologia.

É natural do Algarve, mas vive e trabalha em Lisboa. Considera que um regresso ao Algarve para exercer teria condicionado a sua carreira de sucesso?
Absolutamente. Mas em Leiria ou Coimbra, também.

Trabalhou durante vários anos no Serviço Nacional de Saúde. O que o levou, em determinado momento da sua carreira, a tomar a decisão de passar a exercer apenas no privado?
Apenas no privado não. Sempre trabalhei com outros subsistemas públicos. A razão da escolha prendeu-se com o facto de a Laparoscopia avançar a uma velocidade muito superior ao que os Hospitais Públicos nos proporcionavam. Tentei montar um bom serviço de Laparoscopia no Hospital de Santa Maria. Bati-me vários anos por isso. Até à exaustão.
Em 2002, saí. Contrai um empréstimo (que ainda hoje deixa marcas) e comprei com o meu saudoso amigo e colega já falecido Eduardo Roberto, equipamento laparoscópico à séria. E passávamos dias a fazer cirurgia Laparoscópica, hipotecando fins-de-semana, família e amigos.

Tendo em conta a atual conjuntura económica e social, muitas portadoras de Endometriose sentem cada vez mais dificuldades em ser seguidas no setor privado, dificuldades essas que procuram minorar através da contratação de seguros de saúde. No seu caso, tem optado por não trabalhar com nenhuma seguradora. O que é que motivou esta sua decisão?
Cumpri o meu tirocínio hipocrático durante quase duas décadas. Fui médico e funcionário publico no Hospital de Santa Maria. Fiz domicílios em todos os bairros pobres em redor do Aeroporto de Lisboa (que já não existem), em Unhos, À-dos-Loucos.. .na Clínica de Santo António na Reboleira. Os seguros de saúde eram um produto quase inexistente.
As alterações económicas, políticas e sociais impuseram modificações. Mas a minha relação com a parte do serviço público manteve-se até hoje. Abdiquei do Hospital mas deixei pequeno rasto do meu trabalho que serviu outros. Nunca me relacionei com seguradoras por razões infindáveis. Prefiro a complexidade do ADSE (o melhor subsistema de saúde do mundo para o utilizador, que eu já fui), que uma relação chamemos assimétrica com seguradoras. Ressalvo que esta regra não se aplica de forma transversal a todas.

Na maioria das vezes, as pacientes chegam até si exaustas de anos de procura por respostas e de diagnósticos errados. Como consegue gerir esta carga emocional negativa que as pacientes trazem?
De forma cada vez mais intolerante. A colagem da doença à Infertilidade também não ajudou. Aqui, médicos e algumas doentes (à procura da merecida fertilidade a todo o custo) são responsáveis pelo anacronismo dos maus resultados e diagnósticos. Os que (não) sabem e os que (não) consentem.

Como se sente quando uma paciente lhe diz que consultou outro profissional de saúde e que este não conhecia a doença?Intolerante também. Mas resiliente. Ao longo da minha vida tive de aprender a vergar sem partir, a auxiliar, a gerir silêncios.

É por muitos considerado o maior especialista português em Endometriose e é idolatrado por muitas das suas pacientes. Tem consciência deste facto? E como reage ao sentir esse carinho e admiração?
Sou agnóstico. A idolatria é resvaladiça. O carinho não. Toca. Sente-se na “desalma”. A admiração é diferente. Tem de resultar da exposição do eu, do conhecimento e da sua prática. Aí, fico honrado.

Foi um dos pioneiros em Portugal na abordagem cirúrgica da Endometriose através de laparoscopia. Que balanço faz dessa mudança de paradigma e de que forma procura manter-se atualizado enquanto médico e cirurgião?
Seguir o que faço no quotidiano é fácil. Até o meu telemóvel diz para onde devo ir em cada dia. Só que até o telemóvel é enganado pelos dias fora do País, os trocadilhos das ausências geográficas.
Leio, estudo, dou aulas no estrangeiro em Faculdades prestigiadas, conferencio em locais tão restritos como o RCOG (Royal College of Obstetricians and Gynecologists) ou no MIT, publico em revistas com IF (como Medidor da importância científica da revista no mundo científico) elevado. Sou o único não americano do “Editorial Board” da maior revista de Laparoscopia Ginecológica do mundo, a americana JMIG da AAGL. Faço cirurgias ao vivo para ensino no nosso país e no estrangeiro. Sou prestigiado pelos meus pares, e esse reconhecimento implica conhecimento em aquisição continua.

Acha que a classe médica – e outros profissionais de saúde – deveriam ter mais formação sobre esta patologia?Absolutamente.

Alguma vez se arrependeu, por um momento que fosse, de ter optado por especializar-se numa patologia tão complexa e cada vez mais agressiva?
Não! Porém, por vezes fico a pensar naquele filme do Nikita Mikhalkov “Sol Enganador” ou na frieza da escrita de Louis Férdinand Céline, por coincidência também ele médico, no seu “Morte a Crédito”.

Qual foi o caso de Endometriose mais complexo com o qual se deparou até ao momento?
O último, ou o penúltimo.
Cada vez mais a doença é mais agressiva o que obriga a um desafio cirúrgico maior.

Entre muitas outras coisas, é Fundador da Sociedade Ucraniana de Endoscopia Ginecológica e Cirurgia do Pavimento Pélvico. A sua luta pelo conhecimento da doença e contínua aprendizagem sobre a mesma é louvável. Qual a sua principal motivação?
Inconformismo. Para com tudo. A doença. As maltratadas doentes. O cirurgião. Os ignorantes da doença e da cirurgia.

Um dos objetivos da MulherEndo é a divulgação da Endometriose que, apesar de atingir um número significativo de mulheres, é ainda bastante desconhecida. Na sua opinião, que outras iniciativas poderiam ser levadas a cabo para divulgar esta doença?
Para ser direto: não sei. Estou convosco ( e antes de vocês, com outras) desde o princípio. Temos tentado vários caminhos. Outros também. Pensemos no trabalho da Lone Hummelshöj ou do Dr. Cameran Nezhat. Continuemos!

Tem uma vida profissional extremamente exigente. Como consegue conciliar esta atividade com a sua vida pessoal e o que gosta de fazer no pouco tempo livre que tem?
Simples: ler, ouvir música, filmes (já não são os 600 por ano do antigamente…) e futebol (sem Fátima mas até com um pouco de fado).

Se pudesse usar apenas cinco palavras para se descrever, quais escolheria?
Pergunta e resposta impertinentes. Cabe aos outros julgar-me. Apenas posso adjetivar o que persigo: rigoroso, culto, disciplinado, inconformado, amante.

Se lhe pedíssemos que deixasse uma mensagem às suas pacientes, o que lhes diria?
Não desistam. Do conhecimento e divulgação da doença. Não se conformem com a discriminação de familiares, amigos, empregadores e médicos. Continuem à procura de respostas.
Com a ajuda de quem já sabe alguma coisa, como as Susanas deste mundo, as Associações de Endometriose, os médicos em quem possam confiar.