Entrevista Dra. Filipa Osório

A Dra. Filipa Osório é Ginecologista-Obstetra do Hospital da Luz desde Agosto de 2007 e Assistente Hospitalar desde 2009. As suas áreas de diferenciação são a cirurgia minimamente invasiva ginecológica – laparóscopia e histeroscopia (endometriose, miomas, reconstrução do pavimento pélvico, patologia endometrial, cirurgia da infertilidade), cirurgia vaginal (pavimento pélvico e incontinência urinária)

A medicina é para muitos uma paixão de infância. Como é que soube que queria ser médica?
Não me lembro do momento exato da decisão de escolher este caminho. Desde que me lembro, sempre foi uma área apaixonante. É uma profissão que exige trabalho, dedicação e entrega, exige uma forte componente humana, exige empatia, exige rigor e perseverança… E para mim faz todo o sentido.

Como escolheu a Ginecologia?
No início, quando entrei em medicina, nunca pensei escolher Ginecologia. Foi durante a faculdade que a partir do 4.º ano comecei a ir assistir e posteriormente ajudar o Prof. Pereira Coelho, em cirurgia ginecológica, maioritariamente ligada a infertilidade e já nessa altura com uma forte componente laparoscópica. A verdade é que pouco a pouco me fui apaixonando pela especialidade e atualmente tenho a certeza que fiz a melhor opção e não me conseguiria ver noutra área. Adoro aquilo que faço.

Entre tantas patologias existentes, como é que a Endometriose lhe suscitou mais interesse?
A complexidade da doença, o sofrimento associado e a falta de resposta adequada fizeram-me abraçar este projeto.
Desde os meus primeiros passos como estudante de medicina a acompanhar o Prof. Pereira Coelho, depois mais tarde com o Dr. António Setúbal e finalmente com o fellowship que realizei em Estrasburgo com o Prof. Arnaud Wattiez – todos eles ligados à Endometriose – fizeram-me conhecer de perto a doença com todas as suas vertentes, bem como, desenvolver a capacidade de dar a melhor resposta possível. Depois do percurso que segui seria impensável não seguir este caminho…

Quais as maiores dificuldades com que se depara com pacientes com Endometriose?
Gerir as expectativas e a doença por vezes não é fácil. Quando a doença é de uma agressividade extrema, por mais que nós façamos o melhor que está ao nosso alcance, nem sempre é o suficiente para controlar a doença. O dizer a uma doente que já não lhe consigo oferecer mais hipóteses é redutor para ela e para mim…

A Endometriose tem a capacidade de nos surpreender da pior maneira. Qual o caso de Endometriose mais complexo que lhe apareceu até ao momento?
É uma pergunta de difícil resposta. Cada vez nos deparamos com casos mais difíceis e se hoje penso que “este” foi o mais difícil… consigo ser sempre surpreendida pela doença porque aparece um “outro” ainda mais grave e complexo. Quando penso nos mais difíceis penso em casos com envolvimento do músculo e nervo obturador, músculo psoas e nervo femoral, ascite endometriosica, endometriose do pulmão, envolvimento uréter com perda renal, endometriose com envolvimento intestinal multifocal, entre muitos outros…

De um modo geral a Endometriose é ainda uma patologia desconhecida pela classe médica. Na sua opinião, porque é que isso acontece?
Mesmo ainda havendo algum desconhecimento da doença, penso que a geração médica mais nova já tem uma formação e capacidade diagnóstica diferente, pelo que espero que num futuro próximo o diagnóstico seja mais rápido de modo a tratarmos e orientarmos mais precocemente estas pacientes. É fundamental melhorar a qualidade de vida das portadoras de endometriose, fazendo um diagnóstico correto e atempado do problema.

Temos feito uma divulgação da doença de diferentes formas, mas sentimos que há ainda um longo caminho pela frente. O que acha que nos falta fazer?
Tenho acompanhado de perto o vosso trabalho e têm sido incansáveis na luta pela divulgação. Acho que a divulgação nos cuidados de saúde primários/ centros de saúde é fundamental, bem como, o manter sessões de esclarecimento para a população em geral.

Enquanto médica, quais as diferenças que encontra para a realização do seu trabalho no hospital público e no privado?
O importante para tratar as nossas doentes com endometriose é termos uma equipa multidisciplinar capaz de fazer face à complexidade da doença, e penso ter conseguido criar essa equipa em ambos os locais.
No entanto, é óbvio que existem diferenças e se pensarmos nelas – a parte hoteleira não tem comparação, a consulta é mais personalizada no privado, a resposta dos exames complementares de investigação é mais rápida, as listas de espera são diferentes, mas a verdade é que conseguimos fazer um bom trabalho em ambos os locais.
E infelizmente nem todas as doentes têm capacidade económica para serem investigadas e tratadas num hospital privado, pois a endometriose é uma patologia que pode ser agressiva e necessitar de um apoio de várias valências cirúrgicas, o que pode tornar o tratamento dispendioso.

Para além do acompanhamento prestado pela Ginecologia, adequado à doença, acha que as portadoras de Endometriose deveriam ter outro tipo de apoios?
Acho que a endometriose é uma doença que afecta a mulher em varias facetas. Sendo uma doença que se manifesta frequentemente por dor incapacitante, afecta fortemente a qualidade de vida e a relação profissional e pessoal.
As mulheres portadoras de endometriose deveriam ser avaliadas por uma equipa multidisciplinar: ginecologista, psicóloga, nutricionista, equipa de dor, e em casos especiais – cirurgião geral, urologista ou outra especialidade.

É considerada pelas suas pacientes como uma médica exemplar, atenta, cuidadora, prestável, amiga, interessada e amável. Estas são qualidades suas enquanto pessoa, ou sente necessidade de oferecer um cuidado extra por se tratar de uma patologia que deixa marcas profundas a todos os níveis nas pacientes?
Quando se compreende a doença também se compreende os medos e angustias das pacientes que dela padecem, pelo que apenas tento explicar da melhor maneira e apoiar da melhor forma as minhas doentes.

Enquanto médica, teve ou tem alguém que a inspirasse de um modo especial?
No meu percurso de vida tenho várias pessoas muito importantes e todas elas contribuíram de alguma forma para o meu crescimento como médica e como pessoa.

Atrevo-me a dizer que no ano 2014 recebeu o melhor presente que qualquer mulher pode receber: a maternidade! A chegada da sua princesa mudou-a também enquanto profissional?
O ser mãe torna-nos pessoas ainda mais sensíveis e especiais… E sim muda a nossa vida. Enquanto profissional ajudou-me a compreender melhor o desejo de ter filhos e a incerteza de o conseguir.

Como consegue conciliar um horário extremamente exigente com a maternidade?
Com alguma dificuldade, que me levou a reduzir o tempo de trabalho no Hospital Santa Maria e a reorganizar por prioridades.

É uma médica que muitas vezes sofre e chora as dores das suas pacientes. Depois de ser mãe como é que encara os casos em que a Endometriose causa infertilidade nas suas pacientes?
A vida ensinou-me que nunca se deve perder a esperança e que não se deve baixar os braços perante os obstáculos. É essa força que eu tento transmitir às minhas doentes. E tento desmistificar a necessidade de por vezes terem que recorrer a técnicas de infertilidade (PMA), ou a doação de ovócitos ou a ponderarem a adopção.

Como é que uma mãe, diz a outra mulher que deseja muito sê-lo, que terá de fazer uma histerectomina total?
Eu como médica e como mulher só proponho a remoção do útero em casos extremos, quando a mulher ainda não tem filhos e mantém esses desejo, prefiro fazer uma cirurgia conservadora inicial, mesmo que mais tarde seja necessário remover o útero – tenho muitas doentes que nesse intervalo foram mães.

Apesar dos horários extremamente exigentes, o que é que gosta de fazer no pouco tempo livre que possa ter?
Adoro viajar, adoro passar tempo com a minha filha e com a minha família.

Se pudesse usar apenas cinco palavras para se descrever, quais escolheria?
Humm… não sei, mas gostei da sua introdução na pergunta 10 … atenta, cuidadora, prestável, amiga, interessada e amável!

Se lhe pedisse que deixasse uma mensagem às suas pacientes o que lhes diria?
Que apesar da endometriose nos mostrar dias difíceis da vida, procurem sempre o lado positivo das coisas, não desistam e tenham força!