PARA O FILHO QUE POSSO NÃO TER POR CAUSA DA ENDOMETRIOSE

Publicação Original: http://dailycurenews.online/to-child-i-might-not-have-because-of-endometriosis/
Tradução Integral sem edição: Dália Almeida

Mais uma vez, estou com dores. Sento-me aqui, entúpida de medicação com a esperança de que um dia poderei segurar-te nos meus braços. Só uma vez eu gostaria de ver o teu sorriso, sentir o cheiro da loção de bebé na tua pele, e olhar-te enquanto tu lentamente fechas os olhos e começas a sonhar. Mês após mês, atravesso semanas atrás de semanas de dor e angústia apenas para me agarrar à esperança de que um dia irás aparecer.

A tua mãe tem um distúrbio na capacidade de reprodução que a atormenta há uma década e que te impede de estar neste mundo com ela. .Já foi a uma ronda de médicos, gastou dinheiro da sua poupança, e fez múltiplas cirurgias apenas para manter a esperança de que um dia irás estar com ela. Esta doença é a maior barreira que impede que estejamos juntos.

A tua mãe tem um doença crónica que a maior parte dos médicos admite não compreender. Uma doença que algumas mulheres secretamente carregam consigo todos os dias e cujas dores ninguém imagina. Chama-se Endometriose.

Uma em cada 10 mulheres nos Estados Unidos tem esta doença crónica, e a tua mãe é uma delas. A melhor maneira de a explicar é o crescimento de tecido anormal fora do casulo que deveria nutrir-te durante nove meses. É como que tecido cicatricial, e pode viajar para qualquer lado no meu corpo. A pior parte é que este tecido não sai do nosso corpo como acontece com aquele que sai todos os meses do útero de uma mulher. Ele pode localizar-se em locais como o exterior do útero, em volta da bexiga, e mesmo no diafragma, articulações ou coração.

A dor é tremenda para mim. Faz-me correr para a casa de banho para vomitar, cair quando caminho porque as minhas pernas irradiam desconforto, e pode fazer com que uma tarefa simples se transforme num desafio imenso. Choro pelo menos uma vez por mês em agonia secretamente por causa destas complicações. Por vezes choro ao acordar, ou na minha secretária no trabalho, ou quando conduzo e encosto o carro por causa da dor.

Inicia dois dias antes do meu ciclo menstrual oficialmente começar. Durante os primeiros tempos, os meus ovários fazem-se sentir como um murro na barriga. A seguir vem a dor lombar. A dor é tanta que por vezes luto para me manter em pé, e isto ainda antes do meu ciclo começar. Não consigo dormir e empilho almofadas na tentativa de encontrar conforto. Tomo comprimidos potentes apenas para aguentar o dia de trabalho assim que o meu período começa. Apesar de tomar a medicação, a dor aumenta. Tenho hemorragias abundantes e não consigo controlar o que se passa com o meu corpo.

Desperdiço dinheiro em coisas que me ajudem a reduzir o desconforto mês após mês. Faço massagens para relaxar os meus músculos, coloco emplastros quentes debaixo da roupa e guardo uma muda de roupa no trabalho para qualquer acidente. Luto contra tudo isto apenas porque quero ver o teu rosto.

Já realizei muitas cirurgias. Na primeira vez que viram o meu corpo, disseram-me que não viam nada e a dor estava na minha imaginação. Mudei de médico depois da segunda cirurgia. O médico seguinte era um especialista, e ele ouviu-me. Ele concordou que algo estava errado. Foi o primeiro a encontrar os nódulos de endometriose nos locais onde me queixava. Estava certa. Tinha endometriose por trás do meu útero, o que é difícil de descobrir. Estava perto da minha coluna. Este médico foi quem me disse que não há cura e que a endometriose reincide. Enquanto me mostrava as imagens da cirurgia e o diagnóstico negativo em como a endometriose me iria assombrar nos muitos anos à frente, pensei em ti mais uma vez. Algum dia te teria nos meus braços?

Fiquei tão desesperada por algum alívio que concordei tomar injecções uma vez por mês para não ter menstruação por algum tempo e assim conseguir prelongar o tempo sem que outro ataque de endometriose começasse. O medicamento das injecções era tão nocivo como a prórpia endometriose, mas se era o que era necessário para um dia vir a ter-te nos meus braços, tinha que o fazer.

Um ano mais tarde a dor voltou e recorri a um terceiro médico para mais uma cirurgia. Desta vez havia um assistente conhecido como da Vinci, um robot, e ele faria muito do trabalho necessário para que um dia fosse possível ter-te. Os meus dois braços foram amarrados e colocaram-me em posição invertida na mesa de operações. O robot podia ver melhor do que os olhos humanos e podia limpar melhor a endometriose caso esta voltasse. O robot faria quase todo o trabalho. Quando acordei, descobri que a endometriose tinha regressado. Tinha-se espalhado. Era pior do que da última vez. Tinha-se espalhado para outros órgãos no meu corpo.Tiraram os focos de endometriose para que eu me sentisse melhor, mas lembrem-se de que não há cura. Regressaria.

Algum tempo passou desde que o robot da Vinci fez o seu trabalho até que comecei a sentir-me como antes. O plano é voltar às injecções assim que as coisas se tornem insuportáveis. Depois das injecções, se não melhorar, irão tirar do meu corpo tudo o que me permite ser um dia a tua mãe. Quando os dias ficam mais difíceis, fecho os olhos e sonho contigo.

Imagino os teus primeiros passos, a falta de horas de sono que teremos quando os teus dentes começarem a nascer, e ouvir a palavra “mamã” a sair dos teus lábios. Pergunto-me qual será o teu livro preferido, as músicas que te ouvirei cantar no banho antes de ires para a escola, e o quão alto eu celebraria a tua primeira conquista. Irei alguma vez ver-te vestida como uma princesa para o baile de finalistas? Ter batalhas verbais contigo sobre a hora de deitar, o teu primeiro amor e as tuas notas? Terei a possibilidade de dizer-te adeus quando entrares para a universidade, fazer-te a continência quando deixares o teu país para o proteger ou começares uma carreira para ajudares outros neste mundo pertubado?

Infelizmente, nenhum destes eventos pode vir a acontecer. Apenas sabe que não deixarei de desejar ter-te na minha vida. Continuarei a trabalhar para ser o exemplo que gostaria que o meu filho visse: uma professional dedicada na educação de outras crianças, uma mulher que trabalhou arduamente para conseguir tudo o que tem, uma guerreira que luta diariamente contra uma doença que não tem cura. Querido filho, sou uma lutadora contra tudo aquilo que pode ser uma força contra nós, porque desistir significa nunca te ver.

Há momentos que sinto não ter mais forças para lutar. Como os médicos já disseram, o meu tempo está a acabar com a minha saúde e a minha idade. Há momentos em que choro por não poder ter o que outros têm. Sinto angústia quando vou a eventos de bebés dos meus colegas de trabalho, e sinto-me vazia no segundo domingo de maio de cada ano que passa. Dedico tempo a ter pena de mim própria pensando que poderei nunca ter-te nos meus braços, mas não me afundo em lamúrias. Sentir-me impotente não resolve nada. Abraço os momentos de solidão, solto lágrimas, e depois foco-me em ti mais uma vez. A maneira mais fácil de sair desta situação é fazer a cirurgia “final” e pensar apenas no alívio. Não o farei. Não posso. Luto por ti.

A cada medicação que injecto no meu corpo, cada comprimido que envenenou o meu corpo, cada visita assustadora ao médico para ouvir resultados enervantes, e cada cirurgia para tratar uma doença que irá voltar tentando que eu desista, é por ti. Tu mereces cada momento desta luta. Deveríamos estar juntos.

Tu és a minha força para lutar contra esta doença. Se nos encontrarmos, prometo ser a melhor mãe que existiu nesta terra de Deus. Mesmo que não passes só de um sonho, amar-te-ei para sempre.

Para sempre a pensar em ti,

A tua mãe.

Nota: Qualquer informação médica incluída aqui baseia-se numa experiência pessoal. Para dúvidas relativas a estado de saúde por favor consulte um médico.