Histerectomia – Quando a Endometriose leva tudo

Para as mulheres com Endometriose, uma doença inflamatória, crónica e estrogénio-dependente, definida pela presença de glândulas e estroma endometrial fora da cavidade uterina e que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, os dias são vividos de forma diferente, isto porque, estas mulheres sonham com a existência de uma cura que não existe, uma vez que esta é uma doença recorrente e sem tratamento definitivo.

Sendo uma doença tão complexa e sendo o organismo diferente de mulher para mulher, obriga a que o tratamento médico seja individualizado, atendendo ao facto da idade da mulher, da extensão e da gravidade da doença, do desejo de engravidar e da sintomatologia. É também necessário dar conhecimento e informação detalhada sobre os tratamentos disponíveis para a recuperação da qualidade de vida e conhecimento sobre as recidivas que poderão ocorrer. Para que exista um melhor acompanhamento médico, a mulher deverá ser acompanhada por uma equipa multidisciplinar que inclua, entre outras áreas, ginecologistas, radiologistas, urologistas, psicólogos e médicos com experiência no tratamento da dor, e o mais importante, que tenham conhecimento aprofundado sobre a patologia.

“Conheci de perto a Endometriose, ela levou-me o sonho de gerar um filho, deu-me a conhecer a dor incapacitante e a depressão. Já sem esperança, a endometriose levou-me o útero, os ovários e um bocado de alma…”  Ana Estiveira

Para algumas destas mulheres, que se submeteram a tratamentos hormonais, para o controlo da progressão da doença, e a cirurgias para a remoção dos nódulos e das aderências, mas em que a mesma continua a progredir e a comprometer a qualidade de vida e/ou o bom funcionamento de alguns órgãos, a única opção que resta é a realização da Histerectomia total com [ou sem] Anexectomia Bilateral, e que consiste na remoção dos órgãos reprodutores femininos. Neste processo deve também ser realizada a excisão de todas as lesões de Endometriose, que se encontrem no organismo, porque só desta forma é possível travar a progressão da doença e a sintomatologia que lhe está associada. Apenas a retirada do aparelho reprodutor, sem uma limpeza de todos os focos presentes nos outros locais, não surtirá o efeito desejado no controlo da doença. Ainda assim, as mulheres que são submetidas a esta cirurgia, têm que ter conhecimento que a mesma pode não curar os sintomas ou a doença, uma vez que nem sempre é possível retirar totalmente todos os focos da mesma, sob pena de haver comprometimento da função de diversos órgãos.

“Sei que depois de uma cirurgia como estas não há muito mais a fazer. Vivo o presente, sem dor e com uma qualidade de vida muito superior à que tinha antes do procedimento, mas tenho presente que a qualquer altura o inferno pode regressar!” Susana Fonseca

Quando todas as outras alternativas se mostram insuficientes, este é o último procedimento que as mulheres com Endometriose têm disponível, mas infelizmente também ele traz consequências para a vida da mulher. Nomeadamente a menopausa precoce. A menopausa precoce (MP) carateriza-se por amenorreia [ausência da menstruação], hipoestrogenismo e níveis elevados de gonadotrofinas, em mulheres com idades inferiores a 40 anos e apresenta implicações que podem ser divididas em consequências a curto prazo, como sintomas vasomotores e problemas psicológicos, que incluem, irritabilidade, esquecimentos, insónias e falta de concentração e consequências a longo prazo, nomeadamente osteoporose, risco de morte prematura, doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral. Para além de todos estes riscos que estão associados a uma MP existe também a infertilidade.

“Felizmente consegui realizar o sonho da maternidade biológica, e embora seja grata pela vida que consigo ter hoje, haverá sempre uma mágoa por não poder ter mais filhos. A Infertilidade secundária é ainda muito desvaloriza porque “ao menos conseguiste uma filha” mas a dor é tão legítima como qualquer outra. Na infertilidade não há escalas de dor. Não há egoísmos. Há o corte com o que é natural. Com o círculo normal de qualquer ser humano. Há um luto que tem sempre de ser feito!”  Susana Fonseca

Assim que as mulheres se deparam com uma menopausa precoce, é recomendável que façam uma terapêutica de reposição e tenham cuidados redobrados comparativamente às mulheres que entram numa menopausa natural. A terapêutica de reposição pode, de fato, ter efeitos neuroprotetores quando realizada próximo da transição da menopausa, sendo que, quando realizada em mulheres mais velhas pode ter efeitos prejudiciais e pode aumentar o risco de disfunção cognitiva ou demência. Contudo, ao realizar uma terapêutica com estrogénios voltamos a ter em cima da mesa o problema de um possível recidiva da Endometriose.

“No meu caso, a terapia com estrogénios não era considerada a mais adequada e por isso, faço outro tipo de substituição hormonal. O risco aumentado de doença cardiovascular parece não existir e os afrontamentos desapareceram. Confesso que até tenho medo de assumir que me sinto ótima porque sei que de um dia para o outro a situação pode mudar. Mas interessa o agora. E agora estou bem.”  Fátima Silva

Embora o estudo realizado tenha sido com uma amostra pouco significativa, parece concluir-se que o risco de glaucoma encontra-se aumentado em mulheres submetidas a uma Histerectomia total com Anexectomia Bilateral antes dos 43 anos de idade e o risco não parece ser reduzido pelo uso de terapêutica de reposição. As consequências a nível do humor são descritas com um risco aumentado de depressão, ansiedade, somatização, sensibilidade, agressividade e sofrimento psicológico para mulheres em Menopausa Precoce. A nível da densidade óssea, é conhecido um risco aumentado de osteoporose, sendo necessário recomendar às mulheres a inclusão de suplementação adequada de cálcio e vitamina D, para além de todos os outros componentes relacionados com a nutrição e do exercício físico moderado, que constituem o elemento básico da prevenção da osteoporose e que irá melhorar o seu metabolismo ósseo. Nestes casos, é sem dúvida importante a realização de exames de controlo como a densitometria óssea.

“Realizei uma densitometria sensivelmente 8 meses depois da histerectomia com anexectomia bilateral e a verdade é que, aos 33 anos já me encontro com osteopenia, muito próximo de osteoporose. Faço também com alguma regularidade análises para verificar a vitamina D. Neste momento, para além de terapêutica de reposição, sem estrogénios, faço suplementação de cálcio e de vitamina D.”  Susana Fonseca

A Menopausa Precoce está também associada a um risco aumentado de doença cardiovascular e de morte, sendo os estrogénios protetores contra a doença cardiovascular, existindo também uma associação entre a Menopausa Precoce e risco de insuficiência cardíaca de 66% nas mulheres com menopausa em idades inferiores a 45 anos. Ainda não é claro se a deficiência estrogénica desempenha um papel na etiologia da insuficiência cardíaca em mulheres, ou se outros fatores de risco cardiovasculares possam contribuir para tal. O risco de acidente vascular cerebral em mulheres com Menopausa Precoce ainda permanece um tema controverso, mas vários estudos demonstram que a Menopausa Precoce está associada a um risco aumentado de acidente vascular cerebral. Embora a terapêutica estrogénica represente um risco aumentado de AVC em mulheres mais velhas, no caso das mulheres com idades inferiores a 50 anos, parece ter um papel protetor.

“Para aumentar a qualidade de vida faço ginásio, tomo suplementos para não envelhecer tão rapidamente, fiz acupuntura e faço psicoterapia…” Ana Estiveira

Existe ainda um longo caminho a percorrer sobre a Endometriose, uma doença que ainda é desconhecida na sociedade e para uma grande parte da classe médica. Esta é uma patologia tão complexa, que parece não ter fim no corpo de uma mulher, provocando um enorme sofrimento a diversos níveis.

Artigo: Sandra Pereira e Susana Fonseca
Revisão médica: Prof. Dr. Hélder Ferreira

Bibliografia consultada:
Ferreira, M. (2016). Menopausa Precoce (Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina não publicada). Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto
Sociedade Portuguesa de Ginecologia [SPG] (2015). Consenso Sobre Endometriose. Penela: SPG
Sofia, S.E. (2017). Tenho Endometriose. E agora? Retirado de: http://www.atlasdasaude.pt/publico/content/tenho-endometriose-e-agora