Endometriose – Impacto económico na família e na sociedade

A Endometriose é uma doença ginecológica crónica que se caracteriza pela presença de tecido do endométrio fora da cavidade uterina e que tem como principais sintomas a dismenorreia, dor pélvica crónica, infertilidade, dispareunia e sintomas intestinais e urinários cíclicos, como dor ou sangramento ao evacuar ou urinar durante o período menstrual.

Estima-se que esta doença afecte entre 10% a 15% das mulheres em idade fértil e em torno dos 3% das mulheres na pós menopausa. Em todo mundo estima-se que cerca de 176 milhões de mulheres sejam afetadas pela doença.

Em Portugal ainda não existe o registo do número concreto de mulheres que padecem desta patologia, no entanto, os impactos que a mesma tem ao nível da economia familiar e da sociedade não podem ser desvalorizados.

Desde os primeiros sintomas até ao diagnóstico da doença podem decorrer entre 8 a 10 anos. Durante esses anos a mulher portadora de Endometriose recorre frequentemente a hospitais ou consultórios médicos privados sendo sujeita a uma série de consultas, bateria de exames de diagnóstico, medicação, tratamentos e internamentos hospitalares que para além da sua ineficácia implicam um gasto elevado de recursos económicos do seu orçamento familiar e do serviço nacional de saúde.

Quando, após vários anos e depois de recorrer a um número considerável de profissionais de saúde em diferentes áreas, se obtém um diagnóstico, a portadora continua a despender valores consideráveis em consultas de várias especialidades, em exames, tratamentos e em cirurgias, quando as mesmas são necessárias.

Uma vez que se estima que entre 35% a 40% das mulheres com endometriose, que não são tratadas, apresentem infertilidade, acresce ao orçamento familiar os custos inerentes aos processos para reverter esta situação. Não esquecendo, que muitas mulheres apenas têm contacto com o diagnóstico da doença, após realizarem vários tratamentos de fertilidade, sem que se tenha apurado devidamente a causa da mesma.

Esta doença crónica, em que a dor está constantemente presente, muitas das vezes limita as atividades diárias das suas portadoras levando ao absentismo no trabalho e na escola. Devido às constantes faltas, provocadas não só pela sintomatologia da doença, que muitas vezes impede as portadoras até de caminhar, mas também pela necessidade constante de comparecer em consultas médicas e da realização de exames, são muitos os casos em que se verificam perdas de emprego e insucesso escolar.

Para além das dificuldades sentidas ao nível escolar ou profissional a portadora de Endometriose tem também de lidar com a incapacidade de executar as suas tarefas domésticas diárias, da prática de qualquer tipo de desporto e com a dificuldade de comparecer em eventos sociais, entre outras.

Todas as situações descritas anteriormente acabam por ter impactos financeiros não só no núcleo familiar como na própria economia do país, uma vez que para além da utilização continuada de vários recursos ao nível da saúde pública e privada existe também uma acentuada baixa da produtividade e do consumo.

Sublinhe-se que até à data não existem, em Portugal, estudos que permitam quantificar os impactos económicos e financeiros que a endometriose tem no orçamento familiar e na sociedade em geral. No entanto, um estudo (a) realizado com 909 mulheres com endometriose de 10 países concluiu que a média de custos anuais totais por mulher com endometriose é de 9.579€, sendo 6.298€ de custos indiretos e 3.281€ de custos diretos, dos quais cerca de 95% (3.117€) dizem respeito a cuidados com a saúde. Neste estudo, as parcelas mais importantes dos custos com cuidados de saúde referem-se a cirurgia, 29% (904€), exames de diagnóstico 19% (592€) e consultas médicas 16% (499€). Os gastos com medicação representaram 10% (312€) daqueles custos.

Face ao exposto, conclui-se que a endometriose é uma doença que tem consequências ao nível da saúde pública por ter um impacto económico considerável na vida da paciente, da família e na sociedade de um modo geral.

(a) Simoens S, Dunselman G, Dirksen C, Hummelshoj L, Bokor A, Brandes I, et al. The burden of endometriosis: costs and quality of life of women whith endometriosis and treated in referral centres. Hum Reprod. 2012; 27 (5): 1292-9.

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