A endometriose terá sido identificada pela primeira vez em 1860. Dois séculos depois, esta patologia feminina é ainda um enigma. A verdadeira causa da endometriose é desconhecida e tem sido objeto de várias discussões (1). Existem vários estudos e teorias, embora nenhum consiga explicar completamente por que motivo surge a doença. Desta forma, não existe, até à data, uma justificação totalmente aceite, mesmo no seio da comunidade de especialistas (2). Este facto revela o conhecimento insuficiente sobre a natureza desta patologia. No entanto, alguns fatores estudados, quando combinados entre si, parecem ser a causa do surgimento da patologia. Pensa-se também que, apesar de ser a mesma doença, os vários tipos de endometriose podem ter origens diferentes (3).

Teoria de Sampson
Esta teoria foi descrita por John A. Sampson, em 1927, e pressupõe que, durante a menstruação, algum do tecido menstrual flui no sentido contrário, saindo pelas trompas para a zona abdominal. Sendo um fenómeno normal em muitas mulheres, e estando o mesmo dependente da permeabilidade tubária, a chamada “menstruação retrógrada” pode ser a razão da implantação de tecido do endométrio na zona pélvica (4). No entanto, esta teoria deixa por explicar o surgimento da doença mesmo na sequência de uma histerectomia, ou por que motivo, ainda que em casos raros, a endometriose surge em homens que tenham sido expostos a tratamentos com estrogénio. Estudos recentes dizem que os implantes destas células necessitam de estímulos externos, como fatores genéticos, fatores hormonais, preponderância da raça caucasiana e fatores ambientais ou sociais, para evoluírem para uma doença autónoma (3).

Teoria da Metaplasia
Este é o processo em que uma célula de certo tipo se transforma noutra célula de tipo diferente, normalmente em resultado de algum processo inflamatório. A metaplasia explicaria o motivo de surgirem células endometriais de forma espontânea em locais como os pulmões ou a pele (3). No fundo, esta conceção não só não anula a teoria de Sampson, como a valida, ao preencher a respetiva lacuna (5).

Teoria metastática
Ao longo dos anos, e cada vez mais, se encontram focos funcionantes em locais distantes, não tendo essa localização uma explicação clara, quer através da teoria de Sampson, quer da metaplasia. Para estas localizações à distância, nomeadamente pulmonares e nasais, é viável pensar-se na possibilidade de uma migração ou metastização, sugerindo-se que os focos são compatíveis com uma propagação tanto por via hemática, como por via linfática (5).

Disfunção do sistema imunitário
Esta é uma conceção muito ampla, porque não exclui nenhuma das teorias anteriores, ajudando a compreender por que motivo é que nem todas as mulheres apresentam a doença. Admite-se que algumas mulheres possuam um sistema imunitário incapaz de combater a endometriose. Por outro lado, muitas mulheres com endometriose possuem também baixa imunidade contra outras patologias. Não se compreende, por isso, se é a endometriose que causa a disfunção do sistema imunitário ou se a patologia é uma consequência dessa mesma disfunção (6).

Predisposição genética
Alguns estudos indicam que a origem da endometriose combina factores genéticos e ambientais. Contudo, os estudos de associação genética apresentam várias limitações. Enquanto em alguns indivíduos portadores de uma mutação a doença pode não se manifestar, em outros casos a mesma mutação causal pode nem sequer estar presente (7).

Causas ambientais
A teoria subjacente é a de que a origem da endometriose está relacionada com a influência de agentes poluentes que afetam o corpo e os respetivos sistemas imunitário e reprodutor. Neste sentido, têm sido levantadas algumas hipóteses relativas à relação entre o aparecimento de endometriose e a exposição a substâncias consideradas disruptoras endócrinas, como as dioxinas, os policlorobifenilos, o bisfenol A ou o dietilestilbestrol. Estas substâncias, presentes em objetos do quotidiano e em alimentos consumidos diariamente, têm um efeito tóxico no organismo e tornam-no mais vulnerável ao desenvolvimento de várias doenças, incluindo a endometriose. Desde muito cedo que o ser humano se encontra em risco de contaminação, sendo que o contacto com estas substâncias começa ainda durante a gestação. [Pode encontrar um artigo apenas dedicado a esta temática AQUI]
Referências:
(1) Culley, L., Law, C., Hudson, N., Denny, E., Mitchell, H., Baumgarten, M., & Raine-Fenning, N. (2013). The social and psychological impact of endometriosis on women’s lives: a critical narrative review. Human Reproduction Update, 19(6), 625-639. doi: 10.1093/humupd/dmt027.
(2) Leyland, N., Casper, R., Laberge, P., Singh, S.S. & SOGC. (2010). Endometriosis: diagnosis and management. Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, 32(7-2), S1-S3.
(3) Setúbal, A., Maia, S., Lowenthal, C., & Sidiropoulou, Z. (2011). FDG-PET value in deep endometriosis. Gynecological Surgery, 8(3), 305-309. doi: 10.1007/s10397-010-0652-6.
(4) Wolthuis, A.M., & Tomassetti, C. (2014). Multidisciplinary laparoscopic treatment for bowel endometriosis. Best Practice & Research Clinical Gastroenterology, 28(1), 53-67. doi: 10.1016/j.bpg.2013.11.008.
(5) Coelho, A.P. (2009). Endometriose. In C.F. Oliveira (Coord.). Manual de Ginecologia, Vol.I (pp. 277-293). Lisboa: Permaneyer Portugal
(6) Sourial, S., Tempest, N., & Hapangama, D.K. (2014). Theories on the pathogenesis of endometriosis. International Journal of Reproductive Medicine, 2014, 1-9 http://dx.doi.org/10.1155/2014/179515 
(7) Vassilopoulou, L., Matalliotakis, M., Zervou. M.I., Matalliotakis, C., Krithinakis, K., Matalliotakis, I., Spandidos, D.A., & Goulielmos, G.N. (2019). Defining the genetic profile of endometriosis (Review). Experimental and Therapeutic Medicine, 17(5), 3267-3281. https://doi.org/10.3892/etm.2019.7346