A queixa mais comum na endometriose é a dor, sendo que 80% das mulheres apresentam a dor como principal sintoma (1). Esta pode ser expressa através de várias manifestações, dependendo, numa primeira análise, da localização e órgãos envolvidos na doença, e inclui dismenorreia, dispareunia, dor pélvica crónica, disúria e disquézia (2) (3).

Importa salientar, contudo, que os sintomas desta patologia variam de mulher para mulher em intensidade e extensão. Nem sempre o nível de extensão da doença corresponde a uma maior intensidade de sintomas, sendo até algumas mulheres assintomáticas sem que, para tal, haja uma explicação lógica (4).

Os quatro D da Endometriose

Dismenorreia [dor menstrual]
É entre as mulheres mais jovens que se inicia a presença de dismenorreia e/ou dor pélvica cíclica. É o sintoma mais frequente na endometriose, tendo uma prevalência de 62,2% a 79% (Sinaii et al., 2008; Bellelis et al., 2010). Inicialmente, esta cede a anti- inflamatórios ou aos contracetivos orais, mas progressivamente tal deixa de acontecer, dando lugar a uma intensificação dessa mesma dor (1). A dismenorreia é, frequentemente, o primeiro sinal de alerta.

Dispareunia [dor na relação sexual]
Esta  poderá ser muito intensa em caso de endometriose retovaginal ou dos ligamentos útero sagrados (1). Na endometriose, é de salientar este sintoma  pela sua importância noutras áreas da vida, como é o caso da vida familiar e de casal. Este sintoma é também associado a um menor número de relações sexuais ou mesmo evitamento, medo de dor no momento do coito ou sentimentos de culpa perante o parceiro. Estes factos mostram como a dispareunia não afeta apenas o bem estar psicológico como também a qualidade da vida sexual e a relação com o parceiro (5) (6).

Disquézia [dor ao evacuar]
Muitas vezes subvalorizadas, as cólicas intestinais intensas podem ser um sinal de endometriose gastrointestinal. Na maioria das situações observadas, a endometriose intestinal só é diagnosticada mediante a realização de exames de imagem, como a tomografia computadorizada, a laparoscopia ou colonoscopia, que permitem visualizar o tecido endometrial no intestino ou áreas adjacentes. Para além da disquézia, sobretudo durante a menstruação, a sintomatologia da endometriose intestinal passa por perda de sangue nas fezes, náuseas e vómitos, alterações do trânsito intestinal com diarreias ou quadros de obstipação e distensão abdominal. Estes são alguns dos sintomas de endometriose menos reconhecidos e que poderão ser, em alguns casos, erradamente associados a outras patologias (2).

Disúria [dor ao urinar]
O envolvimento da bexiga e dos ureteres é a localização mais comum da endometriose do trato urinário, provocando muitas vezes dor aquando da micção. Infelizmente, esta endometriose pode ser assintomática, levando ao desencadear de uropatias obstrutivas silenciosas e consequente falha renal (7). No caso de se confirmar este tipo de endometriose, os sintomas mais comuns ocorrem quando a bexiga é afetada e variam com o ciclo menstrual, piorando nos dias anteriores e durante a menstruação (8). Para além da disúria, a paciente poderá apresentar outros sintomas, tais como irritação da bexiga, vontade de urinar frequente, dor quando a bexiga está cheia, perda de sangue na urina durante a menstruação, bem como dor lombar (9). Os sintomas são similares aos de uma infeção urinária, mas sem bactérias presentes e, por isso mesmo, poderá existir erro de diagnóstico (1).

Outros tipos de dor

Dor umbilical – este tipo de dor é a característica principal da endometriose umbilical e define-se pela presença de um nódulo doloroso com possibilidade de hemorragia durante a menstruação (10). Por ser num local onde raramente se encontra endometriose, esta dor é também desvalorizada e esquecida.

Dor abdominal – Nestes casos, a endometriose é verificada pela presença de um nódulo doloroso com intensidade focal em que a dor pode ser constante ou cíclica, agravando-se com a menstruação (7). A endometriose na parede abdominal normalmente está ligada a cicatrizes presentes por realização de intervenções cirúrgicas prévias, como por exemplo a cesariana.

Dor inguinal (canal de Nuck) – Esta endometriose caracteriza-se pela presença de um nódulo doloroso, normalmente na virilha direita e é passível de ser confundida com uma hérnia inguinal. Na endometriose inguinal os sintomas de dor podem aumentar progressivamente durante a menstruação (7).

Dor torácica – Normalmente é o principal sintoma da endometriose torácica, correspondendo a 90% das queixas, e manifesta-se clinicamente por hemoptises cíclicas, pneumotórax, hemotórax coincidentes com a menstruação e nódulos pulmonares endometrióticos (11). A endometriose torácica consiste na presença de tecido endometrial no pulmão ou na pleura. A história clínica minuciosa da doente, juntamente com a ligação dos sintomas ao início da menstruação são fundamentais, já que os exames complementares, quando considerados de forma isolada, não são suficientes no diagnóstico desta doença (7).

Outros sintomas

Menorragias e Hemorragias
As menorragias e hemorragias são um sintoma menos frequente, normalmente associadas à presença de adenomiose, que constitui uma das causas mais comuns de hemorragia uterina anómala abundante ou prolongada (7).

Infertilidade
É outra das manifestações clínicas de endometriose podendo revelar-se na incapacidade em engravidar e também na incapacidade de levar uma gravidez a bom termo. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva afirma que a endometriose está presente em cerca de 50% das mulheres inférteis e que 30 a 50% das doentes com endometriose são inférteis (12). Apesar de, nas formas mínimas e ligeiras, a endometriose poder não ter um papel direto na infertilidade, a dor nas relações sexuais pode ser um fator determinante para a dificuldade em engravidar (1).

Outras manifestações clínicas raras de endometriose incluem a endometriose nasal, no nervo ciático ou mesmo muscular (7).

Cada doente é única e difere nas formas de apresentação e sintomatologia da doença, não existindo uma correlação entre a intensidade ou a tipologia dos sintomas e o grau de gravidade da doença. Assim, e por menor que seja a suspeita de existência da patologia, é crucial a referenciação da paciente para um especialista que melhor poderá diagnosticar a endometriose.

 

Referências:
(1) Setúbal, A., Maia, S., Lowenthal, C., & Sidiropoulou, Z. (2011). FDG-PET value in deep endometriosis. Gynecological Surgery, 8(3), 305-309. doi: 10.1007/s10397-010-0652-6.
(2) Dunselman, G.A., Vermeulen, N., Becker, C., Calhaz-Jorge, C., D’Hooghe, T., De Bie, B., Heikinheimo, O., Horne, A.W., Kiesel, L., Nap, A., Prentice, A., Saridogan, E., Soriano, D., Nelen, W. (2014).  ESHRE guideline: management of women with endometriosis. Human Reproduction, 29(3), 400-412. doi: 10.1093/humrep/det457
(3) Nnoaham, K.E., Hummelshoj, L., Webster, P., D’Hooghe, T., Nardone, F.C., Nardone, C.C., Jenkinson, C., Kennedy, S.H, & Zondervan, K.T. (2011). Impact of endometriosis on quality of life and work productivity: a multicenter study across ten countries. Fertility and Sterility, 96(2), 366-373. doi: 10.1016/j.fertnstert.2011.05.090
(4) Simoens, S., Hummelshoj, L., Dunselman, G., Brandes, I., Dirksen, C., D’Hooghe, T., & EndoCost Consortium (2011). Endometriosis cost assessment (the EndoCost study): a cost-of-illness study protocol. Gynecologic and Obstetric Investigation, 71(3), 170-176. doi: 10.1159/000316055.
(5) Fritzer, N., Haas, D., Oppelt, P., Renner, St. Hornung, D., Wo, Wölfler, M., Ulrich, U., Fischerlehner, G., Sillem, M., Hudelist, G. (2013). More than just bad sex: sexual dysfunction and distress in patients with endometriosis. European Journal of Obstetrics, Gynecology, and Reproductive Biology, 169, 392-396. doi: 10.1016/j.ejogrb.2013.04.001.
(6) Fritzer, N., Tammaa, A., Salzer, H. & Hudelist, G. (2014). Dyspareunia and quality of sex life after surgical excision of endometriosis: a systematic review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, 173, 1–6. doi: 10.1016/j.ejogrb.2013.10.032.
(7) Sociedade Portuguesa de Ginecologia (2015). Consenso sobre endometriose. Penela: Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Disponível em http://www.spginecologia.pt/uploads/CONSENSO_LivroEndometriose_2015.pdf
(8) Berlanda, N., Somigliana, E., Frattaruolo, M.P., Buggio, L., Dridi, D., & Vercellini, P. (2017). Surgery versus hormonal therapy for deep endometriosis: is it a choice of the physician? European Journal of Obstetrics, gynecology, and reproductive biology, 209, 67-71. doi: 10.1016/j.ejogrb.2016.07.513.
(9) Leone, R.M.U, Ferrero, S., Candiani, M., Somigliana, E., Viganò, P., & Vercellini, P. (2017). Bladder Endometriosis: A Systematic Review of Pathogenesis, Diagnosis, Treatment, Impact on Fertility, and Risk of Malignant Transformation. European Urology, 71(5), 790-807. doi: 10.1016/j.eururo.2016.12.015.
(10) Machairiotis, N., Stylianaki, A., Dryllis, G., Zarogoulidis, P., Kouroutou, P., Tsiamis, N., … Machairiotis, C. (2013). Extrapelvic endometriosis: a rare entity or an under diagnosed condition? Diagnostic Pathology, 8 (194), 1-12. doi: 10.1186/1746-1596-8-194.
(11) Joseph J., Sahn, S.A. (1996). Thoracic endometriosis syndrome: new observations from an analysis of 110 cases. The American Journal of Medicine, 100(2), 164-170. doi: 10.1016/s0002-9343(97)89454-5
(12) Endometriosis Foundation of America (2019). What Is Endometriosis? Causes, Symptoms and Treatments. Consultado em Março de 2019, em https://www.endofound.org/how-does-endometriosis-impact-fertility