Entrevista Dr. Hélder Ferreira

O Dr. Hélder Ferreira, natural de Braga, licenciou-se em Medicina, pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto  em 2002. As áreas em que o seu trabalho se diferencia são a cirurgia laparoscópica ginecológica (endometriose, reconstrução do pavimento pélvico e miomas), cirurgia vaginal (pavimento pélvico e incontinência urinária), cirurgia histeroscópica e cirurgia da infertilidade. Em 2009, realizou um estágio (fellowship) no âmbito da cirurgia laparoscópica avançada no IRCAD-ETIS e nos serviços de ginecologia dos hospitais universitários de Strasbourg, França, sob a orientação do Professor Arnaud Wattiez. É desde o mesmo ano docente convidado no IRCAD-ETIS (França) na área de cirurgia endoscópica ginecológica avançada.

A área da medicina é uma das mais exigentes a todos os níveis. Como é que soube que queria ser médico?
Desde muito jovem que tive contacto com a prática da medicina nas suas diferentes vertentes. A vontade de enveredar por uma carreira tão exigente veio da partilha de experiências com pessoas próximas que me motivaram a seguir este rumo. Tenho consciência que é, mais do que uma profissão, uma missão e uma forma de vida. 

Porquê a especialidade de Ginecologia?
Por ser uma especialidade muito abrangente, que lida de forma muito próxima com a vida. Sempre me preocupei com a saúde da mulher, quer como mãe, quer como ser humano no seu todo. Cada dia que passa, penso ter feito a opção certa e, tento sempre aprender um pouco mais para poder oferecer algo de melhor.

Porque é que entre tantas patologias, escolheu aprofundar os seus conhecimentos na Endometriose?
Apercebi-me que era uma doença bastante incapacitante e causadora de uma dor desconcertante em muitas mulheres. Apesar da aparente complexidade da sua abordagem, eu acreditava que era viável oferecer uma melhor qualidade de vida àquelas mulheres. E felizmente é possível.

Como surgiu o convite para fazer parte do Comité Executivo do Winners Project, desenvolvido pelo prestigiado IRCAD?
O meu estágio de cirurgia minimamente invasiva em Estrasburgo, no IRCAD, foi algo que definitivamente marcou a minha formação. Tive oportunidade de aprender e trabalhar com um dos melhores cirurgiões no tratamento de endometriose a nível mundial. O Professor Arnaud Wattiez é uma pessoa ímpar, alguém que gosta de ensinar e partilhar os seus conhecimentos. O seu entusiasmo contagiou-me e encorajou-me a colaborar neste projecto  aceitando o desafio de ajudar no seu desenvolvimento.  

Qual é o principal objetivo deste projeto?
Trata-se de um projecto educativo internacional que já envolve mais de 3000 cirurgiões das mais diversas latitudes. O principal objetivo é divulgar e tornar acessível ao maior número de interessados possível as diferentes abordagens cirúrgicas minimamente invasivas. Inúmeras pacientes de várias nacionalidades já têm beneficiado desta iniciativa formativa para os seus médicos.

Na sua opinião, que papel podem desempenhar cursos de e-learning e a vertente multimédia (como os vídeos de cirurgias ou a transmissão das mesmas ao vivo) na formação de especialistas em Endometriose?
A videolaparoscopia foi uma verdadeira revolução no tratamento cirúrgico de diversas patologias. Além das inúmeras vantagens irrefutáveis como a possibilidade de oferecer um menor trauma cirúrgico, melhor resultado estético e uma recuperação mais rápida, também oferece o benefício de uma melhor visualização anatómica e da doença, possibilitando um tratamento mais preciso e eficaz. Os vídeos de cirurgias e as “cirurgias ao vivo” poderão ser instrumentos didáticos importantes no processo da aprendizagem cirúrgica.

Quais as maiores dificuldades com que se depara com pacientes com Endometriose?
Estabelecer uma relação clara e objectiva entre os sintomas apresentados e a gravidade/extensão da doença. Frequentemente,  pequenos implantes de endometriose associam-se a queixas álgicas muito intensas e incapacitantes.

Existem ainda muitos ginecologistas que desconhecem a doença e as repercussões que esta pode ter. Acha que os médicos deviam ter mais formação sobre esta patologia?
Absolutamente.

Acha que o nosso governo deveria reconhecer a Endometriose como uma doença crónica?
Penso que a doença deve ser mais reconhecida de forma a ser possível tratar adequadamente o maior número de pacientes possível.

Esse reconhecimento, por parte do estado, mudaria alguma coisa na vida das pacientes?
Acredito que poderia mudar de forma positiva a vida das pacientes atendendo a que medidas adicionais de apoio poderiam vir a ser  implementadas.

Qual foi o caso de Endometriose mais complexo que lhe apareceu até ao momento?
É difícil responder pois, infelizmente são frequentes. Os casos com atingimento multiorgânico (reprodutor, urinário, intestinal) geralmente são os mais complexos.

Um dos nossos objetivos é a divulgação da doença, porque apesar de ser uma doença muito comum é ainda bastante desconhecida. Na sua opinião, o que se poderia fazer mais para divulgar esta doença?
Apostar na sua divulgação nos cuidados de saúde primários.

Para além de um acompanhamento adequado à doença, que tipo de apoios acha que as portadoras de Endometriose deveriam ter?
Um apoio diferenciado com respeito aos programas de procriação medicamente assistida.

Trata as suas pacientes com uma dedicação e um cuidado notável. É uma qualidade sua enquanto pessoa ou sente necessidade de que assim seja, por se tratar de uma patologia que deixa marcas profundas a todos os níveis nas pacientes?
Talvez ambas.

Qual a situação mais caricata que já lhe aconteceu em consulta?
No meu dia de aniversário houve uma paciente que trouxe um bolo para o consultório e surpreendeu-me ao cantar o “Parabéns a você…”.

Enquanto médico, tem alguém que lhe sirva de inspiração?
Várias personalidades da medicina nacional e internacional são fonte de inspiração diária na minha prática médico-cirúrgica. É muito difícil individualizar. 

E na vida, de um modo geral, há alguém que o inspire particularmente?
O meu pai.

Tem uma vida profissional extremamente exigente. Como consegue conciliar esta atividade com a vida pessoal?
Apesar das inúmeras privações e restrições de tempo, tento fazer o possível e o impossível para ter algum tempo pessoal.

O que é que gosta de fazer no pouco tempo livre que tem?
Desporto e leitura.

Se pudesse usar apenas cinco palavras para se descrever, quais escolheria?
Dedicação, Coragem, Entusiasmo, Humildade e Respeito.

Se lhe pedisse que deixasse uma mensagem às suas pacientes o que lhes diria?
Sejam fortes!

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