Entrevista – Dr. Sérgio Soares

Dr. Sérgio Soares nasceu no Rio de Janeiro em 1968. Estudou medicina na Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte. Na mesma instituição obteve o diploma de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e realizou um Mestrado em Ginecologia. Já na Europa, o Dr. Sérgio Soares obteve o seu PhD em Biologia Celular e Imunologia na Universidade Autónoma de Barcelona em ​​Espanha. Posteriormente, trabalhou durante 5 anos no IVI Valencia e é actualmente o director do IVI Lisboa, em Portugal.

Quando é que decidiu que queria ser médico?
A verdade: não posso dizer o velho cliché ‘desde cedo senti o chamado e soube que a minha vocação era a de ajudar às pessoas’. Penso que o que primeiramente fez-me pensar na profissão foi o gostar das aulas de ciências biológicas.

Porquê a área de ginecologia?
Já próximo da fase final do curso médico passei, em função da estruturação do currículo, a ter contacto com a obstetrícia e gostei imenso.

E a Infertilidade, surgiu quando foi para a Universidade Autónoma de Barcelona para obter o seu PhD?
Foi antes. Surgiu ainda no internato: a Medicina Reprodutiva começou a impor-se sobre a Obstetrícia no meu gosto pessoal. Passei a ser monitor da embrionária (nunca melhor dito!) Unidade de Infertilidade do Depto. de Ginecologia e Obstetrícia e a partir daí a coisa avançou para o doutoramento em Barcelona.

Depois de integrar a equipa do IVI em Valência como surgiu a oportunidade de vir para Portugal como director do IVI Lisboa?
O grupo IVI propôs-me ir abrir um Centro no Brasil mas contra-argumentei que me parecia mais interessante o desafio português. Estava havia alguns anos na Península Ibérica e sentia-me já muito adaptado e sem vontade de a deixar…

Como é liderar uma equipa maioritariamente feminina?
Não há como negar que é diferente de lidar com um coletivo predominantemente masculino, tem as suas singularidades. Tive sorte: o grupo é espetacular e sem ele a clínica nunca teria chegado ao ponto no qual se encontra.

Sendo Brasileiro, natural do Rio de Janeiro, como tem sido para si viver em Portugal?
Essa é a mais fácil das perguntas: estou completamente apaixonado pelo país e por Lisboa. Gosto profundamente das coisas daqui e com frequência apanho-me a pensar no afortunado que sou por aqui viver. Cultura (a gastronomia!), clima, natureza, segurança, tranquilidade… tudo!

As suas pacientes consideram-no um médico muito acolhedor, óptimo profissional e competente, não só nas áreas da fertilidade mas também na Endometriose. Enquanto médico o que é necessário para se chegar a este grau de excelência?
Não digo que eu pessoalmente tenha alcançado qualquer grau de excelência. Falando genericamente, a actividade médica clínica é muito dura porque exige qualidades em campos fundamentalmente independentes, como o do conhecimento médico propriamente dito, o do bom senso e a vertente psicológica da relação com o paciente. É perfeitamente possível ser ótimo em dois desses campos mas se falta, por exemplo, a vertente psicológica, se não se é empático, é difícil chegar a ser-se um médico no sentido pleno.

É uma pessoa muito organizada que prima pela eficiência a todos os níveis. Tendo em conta o ritmo intenso de trabalho que tem no IVI como concilia a sua vida profissional com a pessoal?
A vida pessoal perde muitas horas, com certeza. Deve-se tentar fazer com que as horas que a ela podemos dedicar tenham qualidade. A família consegue, num instante, fazer-me sentir bem.

Tendo em conta os inúmeros casos de Infertilidade relacionada com Endometriose/Adenomiose que tem acompanhado nos últimos anos, como avalia o diagnóstico e o tratamento da Endometriose em Portugal?
Como em tantos outros temas (e como em tantos outros países), há heterogeneidade. Vemos profissionais e equipas a trabalhar mesmo muito bem, a um nível de primeiríssimo mundo mas, ao mesmo tempo, ainda são tristemente reais os casos de pacientes que passam anos a ‘passear’ a sua doença de médico a médico até dar com um que lhe faça o diagnóstico, mesmo em algumas situações de diagnóstico claro.

Considera que as doentes com Endometriose têm necessidade de um acompanhamento diferenciado das outras mulheres inférteis?
Sem dúvida. A Endometriose traz consigo circunstâncias unicamente suas, tanto no manejo da questão reprodutiva, como do ponto de vista de saúde geral e psicológica da mulher.

Quando as pacientes chegam até si, sem um diagnóstico prévio de Endometriose, que sinais lhe dão o alerta para a possibilidade da existência da doença?
Basicamente, existem os sintomas (dor pélvica crónica, aumento do volume e da dor menstrual – devido a uma adenomiose associada, dor durante o acto sexual ou mesmo sintomas intestinais ou urinários) e existem os sinais clínicos (sinais ecográficos de quistos ováricos, de aderências pélvicas, de trompas com anatomia alterada…). O exame ginecológico também pode dar sinais clínicos duma Endometriose profunda.

Qual o procedimento a seguir nessas situações, quando desconfia que a Infertilidade pode estar associada à Endometriose?
Cada caso tem um manejo específico. Em algumas situações, é preciso solicitar outros exames de imagem, como a Ressonância Magnética. Noutros, é importante a realização da laparoscopia antes dos tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA). E existem também as situações nas quais deve-se ir primeiramente aos tratamentos de PMA. Ou seja, é importante estar constantemente a ponderar prioridades caso a caso.

Aproximadamente, qual percentagem de casos de infertilidade no IVI que se devem à Endometriose?
Cerca de 25% das nossas pacientes têm Endometriose e/ou Adenomiose.

Quais as maiores dificuldades com que se depara nas pacientes com Endometriose?
Na Endometriose, é especialmente dramático o tempo perdido em estratégias pouco diligentes na resolução do problema reprodutivo, porque a questão da piora da função ovárica com o passar dos anos se vê especialmente acentuada. É difícil quando nos deparamos com pacientes com estágios mais avançados da doença, que já não permitem contar com a função ovárica.

Quais as alternativas de tratamento de fertilidade disponíveis para uma mulher com Endometriose?
Em teoria, as mesmas que para os casais inférteis em geral. No entanto, como comentei anteriormente, essas alternativas devem ser ponderadas sob o prisma específico da Endometriose e do factor tempo e, sempre, tendo em conta a realidade de cada caso.

Na sua perspectiva, enquanto médico, existe um limite para a realização de tratamentos de fertilidade em doentes com endometriose?
Sim. Tanto no caso da Endometriose, como nos casos de infertilidade em geral, há situações (muito raras hoje em dia, felizmente) nas quais é preciso reconhecer que não devemos seguir com os tratamentos de PMA. Isso pode decorrer da necessidade de priorizar a saúde da paciente ou pode impor-se por estarmos diante de problemas para os quais a medicina ainda não tem solução.

Enquanto médico, teve ou tem alguém que o inspirasse de um modo especial?
Em inúmeros profissionais que conheci ao longo da vida, vi coisas que tentei assimilar e outras que me fizeram pensar “Aí está um comportamento que não quero ter”. Ambos (modelo e anti-modelo) são utilíssimos e esse processo de aprender com o comportamento dos outros não termina nunca.

Apesar dos horários extremamente exigentes, o que é que gosta de fazer no pouco tempo livre que possa ter?
Um mundo de coisas fora da medicina me atraem enormemente: estar com a família, música, literatura, a gastronomia portuguesa (já o disse?). Se possível, todas essas juntas, num fim de semana no Alentejo. Por certo, também o futebol!

Se pudesse usar apenas cinco palavras para se descrever, quais escolheria?
Não sou bom nisso de me descrever. Não é das coisas que faça no pouco tempo livre que tenho…

Se lhe pedisse que deixasse uma mensagem às suas pacientes com Endometriose o que lhes diria?
“Tenham uma atitude positiva diante das dificuldades e busquem, de forma diligente e bem assessorada, a soluções dos seus problemas.” A informação é fundamental: temos de encontrar uma maneira de fazer as informações básicas de saúde chegarem de modo mais eficaz às pessoas.

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