Entrevista Dra. Fátima Faustino

A Drª Fátima Faustino é, desde Novembro de 2015,  coordenadora da Unidade Integrada de Endometriose do Hospital Lusíadas Lisboa.

1. A medicina é uma área de grande exigências. Como é que descobriu que queria ser médica?
Desde que me lembro, sempre foi essa a minha vocação e quando aos 17 anos me confrontei com o facto de que para realizá-la teria de enfrentar um percurso difícil, não hesitei.

2. O que a levou escolher a especialidade de Ginecologia?
A minha primeira opção estava numa especialidade cirúrgica e decidi conciliar isso numa especialidade mais abrangente que me permitisse aliar a vertente médica, cirúrgica e humana ao serviço do bem-estar e saúde da Mulher.

3. E a Endometriose? Como é que surgiu no seu percurso?
Quando acabei a especialidade em Ginecologia e Obstetrícia fiz vários cursos de pós-graduação em França e Bélgica. Lá deparei-me com casos severos de Endometriose que me alertaram para a doença, embora nessa altura me parecesse não haver casos tão graves em Portugal. Essa ideia foi-se modificando, sobretudo nos últimos 5 anos, em que tenho tratado casos cada vez mais complicados da doença.

4. Quais as maiores dificuldades com que se depara no tratamento das doentes com esta doença?
Sendo uma doença cujos sintomas principais são a dor e a infertilidade e ocorrendo em mulheres muito jovens, é sempre difícil equacionar o melhor tratamento no sentido de aliviar a dor, preservando ou mesmo melhorando a fertilidade.

5. Dada a sua larga experiência no tratamento desta patologia, qual foi o caso mais complicado até ao momento?
O caso mais difícil foi aquele em que tivemos de retirar um rim numa mulher jovem, por se encontrar completamente danificado pela doença. E continua a ser um caso complicado pelo dilema dessa doente, em querer preservar a hipótese de ser mãe e o risco do agravamento da doença.

6. Na sua perspetiva, o que é que é preciso fazer para que outros Ginecologistas se interessem e comecem a formar-se para lidar devidamente com esta patologia?
Continuar a sensibilizar e divulgar a complexidade da doença, manter uma actualização constante sobre eventuais tratamentos inovadores e proporcionar treino cirúrgico aos mais jovens para que possam continuar o trabalho que temos vindo a desenvolver.

7. Acha que o nosso governo deveria reconhecer a Endometriose como uma doença crónica?
Dada a gravidade e complexidade crescente da doença, penso que faria todo o sentido.

8. Quais as principais diferenças com que se depara no desenvolvimento do seu trabalho entre o sector público e o sector privado?
Tive o privilégio de trabalhar num hospital público onde não senti diferenças nos recursos de que dispunha. A única diferença seria o mais fácil acesso de algumas doentes ao sector público por razões económicas.

9. Que tipo de apoios deveriam as portadoras de Endometriose ter para além do acompanhamento prestado pela Ginecologia?
Por vezes temos casos que exigem um acompanhamento multidisciplinar, não só nas situações cirúrgicas em que necessitamos da colaboração de um cirurgião colo-rectal e de um urologista, como também nas situações de infertilidade em que é essencial um grupo de PMA que conheça bem a doença. Sem esquecer que nos casos mais complicados, um especialista no tratamento da dor e mesmo um psicólogo são indispensáveis.

10. É considerada pelas suas pacientes como uma médica dedicada, sincera, prática e despachada. Estas são qualidades suas apenas enquanto profissional?
É difícil falarmos sobre nós próprios, mas penso que essas características fazem parte de mim como pessoa, tal como a Medicina faz parte da minha vida. E a minha preocupação principal é chegar ao fim do dia com a noção que fiz o melhor que sei e posso pelas minhas doentes…

11. Sendo mulher e mãe, como diz a uma paciente com endometriose que também deseja ser mãe, que tem que ser submetida a uma histerectomia total?
Essa é uma das decisões mais difíceis que temos de comunicar e aquela que está sempre no fim da lista quando uma paciente não tem filhos. Sentir e entender o que uma mulher deve sentir nessa situação é essencial para conseguirmos dar o apoio que ela necessita quando não há outra alternativa.

12. A Endometriose é uma das maiores causas de Infertilidade feminina. Enquanto médica, quando realiza um parto de uma paciente que previamente operou à Endometriose, qual é a sensação?
Apesar dos muitos partos que já realizei, nunca consegui deixar de me emocionar cada vez que ajudo alguém a nascer… Nos casos de endometriose que tratei, à emoção junta-se um sentimento de vitória contra a doença. Conseguimos!…

13. De todos os países em que já esteve em trabalho, qual o que, na sua opinião, tem mais e melhores conhecimentos/técnicas para o tratamento desta doença?
É sempre difícil avaliar correctamente quando não estamos integrados nos serviços, mas parecem-me haver bons centros em França e na Bélgica.

14. Houve algum caso que a marcasse particularmente e que lhe “tirasse o sono”?
Sendo cirurgias muitas vezes complexas, vários têm sido os casos que exigem muita atenção e preocupação no pós-operatório. Felizmente durmo bem…mas houve de facto um caso que se complicou e exigiu duas reintervenções no pós-operatório. Foi uma luta difícil para conseguir que a doente ficasse bem, mas conseguimos. Esse ” tirou-me o sono”…

15. Enquanto médica tem alguém que lhe sirva de inspiração?
Todos aqueles que trabalham com dedicação, honestidade e talento…

16. Sendo a sua terra natal o Algarve porque é que decidiu trabalhar e viver em Lisboa?
Vim estudar para Lisboa aos 17A, porque queria seguir Medicina. Entretanto a minha vida pessoal orientou-se em Lisboa e cá fiquei!

17. Como gere a sua vida familiar tendo em conta a apertada agenda profissional que tem?
Nem sempre é fácil…e muitas vezes só é possível com o imenso apoio, carinho e compreensão da família. O facto do meu marido ser médico pode ter facilitado em termos de entendimento do tipo de vida que temos…mas a minha filha foi muitas vezes privada da minha presença e isso gera algum sentimento de culpa, com o qual não é fácil lidar. Essa foi uma das razões porque não tive mais filhos…

18. Apesar da imensa carga horária entre consultas, cirurgias, congressos, cursos entre outros, o que gosta de fazer no seu tempo livre?
Os tempos livres reservo-os habitualmente para a família e por vezes fazemos algo que todos gostamos: ouvir música, ir ao cinema, viajar… Também gosto muito de ler e fazer algum exercício físico…

19. Se pudesse usar apenas cinco palavras para se descrever, quais escolheria?
Honesta, frontal, lutadora, teimosa e emotiva.

20. Se lhe pedisse que deixasse uma mensagem às suas pacientes o que lhes diria?
A vida não é, por vezes, fácil mas vale a pena vivê-la…e quando tudo parece negro, há sempre uma luz que nos indica o caminho! Nunca percam a esperança!

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