Grito pela pintura

Cada uma de nós, portadoras de Endometriose, precisa de encontrar a melhor forma de lidar com esta doença. A Endometriose é uma doença para a vida que pelas suas características pode gerar isolamento, depressão e outros problemas. É por isso urgente, que cada uma de nós, procure em si a melhor forma de aprender a viver com tudo o que esta patologia comporta na nossa vida. Existe e tem sempre de existir, vida para além da Endometriose. Tem sempre sempre de existir algo na nossa vida que nos traga sorrisos, que nos dê alento e nos dê forças para continuar esta caminhada, muitas vezes penosa.

Hoje trazemos mais uma tradução de um texto que achámos interessante. Para a Ellie, a forma encontrada para lidar com esta doença foi a pintura. Esperamos que gostem e que este pequeno texto vos traga algum alento e força! Estamos Juntas!

Susana Fonseca

Publicação Original: http://www.endometriosisaustralia.org
Autor: Ellie Kammer
Tradução: Dália Almeida
Revisão: Susana Fonseca

O meu maior problema em ter Endometriose não é, surpreendentemente, a dor crónica ou ter que adoptar a dieta mais aborrecida que alguém possa imaginar… É o isolamento! Descobri que por um sem número de razões a Endometriose, para aqueles que não sofrem dela, é uma doença difícil de compreender e relacionar. Eu sou frequentemente dispensada ou incompreendida, penso eu, devido ao facto de as portadoras estarem desconfortáveis em falar e também porque a doença é tão diferente para cada uma das tantas mulheres. Algumas raramente sentem dor ou outros efeitos da doença. Outras, como eu, sentem esses efeitos no seu extremo não tendo um único dia sem dor há já muito tempo.

Para compreender melhor a minha doença li muito sobre ela. Isso ajuda-me a aceitá-la melhor e também a articular as minhas lutas junto dos meus entes mais próximos. No entanto, faz-me sentir incrivelmente frustrada saber que é dada tão pouca importância à procura de uma cura ou mesmo à procura de uma solução para a gestão do tratamento e da dor. Li no outro dia que a dismenorreia (dor menstrual) pode ser tão dolorosa como um ataque cardíaco, mas eu não sou apressadamente encaminhada para um hospital ou tratada com morfina. Encontram-me na minha cama, a chorar sozinha agarrada a um saco de água quente e a uma caixa de analgésicos, porque a doença não é considerada como tal seriamente. Talvez envie uma mensagem a uma amiga sem que ela me responda porque já está farta de me ouvir falar sobre isto, porque já estou farta de me sentir assim e já estamos todos um pouco habituados a isto ser um acontecimento diário. A espiral de vergonha e isolamento continua… Que peso devo ser para toda a gente que me rodeia; mas eu simplesmente não consigo sofrer em silêncio.

A falta de reconhecimento, notoriedade e investigação enche-me de revolta, e o meu estado mental ressente-se. Enquanto por um lado fiz uma cirurgia, tomo um comprimido diário e ajustei-me àquilo que chamo uma “dieta de papelão” pela sua falta de sabor e inspiração, agora também preciso de tomar medidas para evitar juntar-me às aproximadamente 25% de sofredoras de Endometriose que ponderam cometer suicídio.

A minha resposta é a pintura. Pintar acalma-me, mantém-me ocupada, e também me permite expressar as minhas frustrações de uma forma saudável e produtiva. Como bónus adicional, tenho a oportunidade de ensinar a outros sobre esta doença tão presente e crónica através das imagens que crio. Também tenho a oportunidade de gritar sobre esta doença através da tinta. Não tenho que ter receio de assustar as pessoas. Como é uma imagem, os que estão fartos de ouvir falar na doença poderão achar mais fácil relacionarem-se com algo visual e instantâneo, e aqueles que realmente querem saber mais sobre a doença ou que sofrem comigo, podem sentir conforto através da imagem o que através de palavras se mostra impossível.

Embora sinta que terei sempre dificuldades em aceitar que estou ligada a esta doença para o resto da minha vida, a arte tem-me ajudado a torná-la uma amiga. Posso apreciá-la pela motivação e inspiração que me dá todos os dias para fazer a diferença de uma forma que sei e domino. Divulgando as minhas imagens pelo mundo permite-me também conectar a outras doentes, o que diminui os sentimentos de solidão e incompreensão para todas nós.

Não posso mesmo recomendar outra forma tão criativa de aliviar algum do peso emocional que vem de mãos dadas com a Endometriose. Pegue no seu fogo e dor e construa algo. É uma ferramenta poderosa para comunicar. Mesmo que não seja particularmente talentosa… Simplesmente faça-o. Irá curar o seu coração e a sua mente e possivelmente os de outras pessoas também. A comunicação é a chave!

Ellie Kammer

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