Infertilidade nas Portadoras de Endometriose

Realizou-se no passado Sábado, dia 10 de Maio, nas instalações do IVI em Lisboa, uma sessão de esclarecimento subordinada ao tema Infertilidade nas Portadoras de Endometriose. Esta sessão contou com a presença do Dr. Sérgio Soares, do IVI e do Dr. António Setúbal, do Hospital da Luz.

Esta sessão foi uma organização conjunta este o IVI e a MulherEndo tendo por objectivo, num ambiente informal e descontraído, esclarecer algumas dúvidas que nos são colocadas frequentemente pelas portadoras de Endometriose.

A sessão de esclarecimento teve início com a intervenção do Dr. Sérgio Soares com o tema Endometriose e a Medicina Reprodutiva.

Da sua intervenção queremos reforçar os seguintes pontos:

  • A Endometriose está presente em 40% das pacientes com dor pélvica e em 70% das pacientes com Infertilidade.
  • É essencial o trabalho em sintonia e parceria entre os médicos dos centros de PMA e os cirurgiões especialistas em Endometriose.
  • Os exames mais relevantes num caso de PMA com Endometriose são:

Ecografia com sonda vaginal Este exame é o primordial quando realizado por um profissional com ‘olho treinado’ permite observar quistos ováricos, aderências pélvicas, adenomiose, imagens sugestivas de hidrossalpinge e consegue dar uma estimativa da reserva folicular.

Ressonância Magnética

Marcador Tumural CA-125

Histerossalpingografia

  • A cirurgia está indicada como coadjuvante de um tratamento de fertilidade em casos de hidrossalpinge, dor intensa, manifestações urológicas e intestinais valorizáveis, endometriomas grandes e anatomia pélvica comprometida. Aquando da necessidade da realização de uma cirurgia para potenciar o tratamento, são geralmente usados agonistas entre esta e a realização da FIV.
  • A cirurgia é a única forma verosímil de obter o diagnóstico concreto e certo da Endometriose. Mas em casos de doentes com pré-diagnóstico imagiológico de endometriose, assintomáticas, em que os seus achados de imagem são isolados, que apresentam uma situação controlada não se deve indicar cirurgia prévia pois esta pode levar a lesão dos órgãos reprodutores.
  • Um estudo recente, em que foram objeto de estudo 93 pacientes com Endometriose e em realização de tratamento de fertilidade, verificou-se que 13% mostrou uma ausência de resposta à estimulação ovárica pós cirurgia e que 0% mostrou ausência de resposta à estimulação.
  • Está também comprovado por recentes estudos que 54% a 69% das mulheres submetidas a cirurgia de excisão de um endometrioma apresentam tecido ovárico removido, ou seja, há sempre diminuição da reserva ovárica da mulher.
  • Os casais com Endometriose têm uma percentagem menor de sucesso nos tratamentos de fertilidade em relação aos casais com outras formas de infertilidade.
  • Em casais com Endometriose  está estimado um máximo de 3 a 4 ciclos para IIU
  • Esta menor percentagem de sucesso nos tratamentos de PMA deve-se sobretudo ao facto de a pelve de uma mulher com Endometriose ter muito mais células inflamatórias que outra mulher qualquer.

 Os factores a ter em conta num procedimento de medicina reprodutiva são:

  • Idade feminina
  • Reserva ovárica
  • Factores dos tubos peritoniais
  • Tempo de infertilidade
  • Estado da cavidade uterina
  • Factores masculinos

Tipos de estratégias de tratamentos de fertilidade:

1º linha

  • Coito programado
  • Inseminação intra-uterina (IIU)

2ª linha

  • Fertilização In Vitro (FIV)
  • Injeção Intracitoplasmática (ICSI)

Os especialista de PMA num caso de Endometriose devem:

  • Ter um alto grau de suspeição
  • Pensar no quadro geral do casal
  • Ter uma adequada caracterização
  • Em caso de necessidade de cirurgia devem encaminhar para um especialista treinado em Endometriose e em laparosocopias complexas
  • Ter diligência na condução do caso

Da intervenção do Dr. António Setúbal queremos destacar o seguinte:

  • A incidência da Endometriose é cada vez maior, cada vez está mais agressiva e cada vez se verifica mais em pacientes mais jovens.
  • O Diagnóstico da Endometriose é feito com 2 ouvidos e um dedo. Estas são as ferramentas mais importantes para o despiste e suspeita, ouvir as queixas da paciente, valorizar as suas dores e queixas e a palpação da cavidade pélvica.
  • A ultrassonografia e a Ressonância Magnética estão cada vez mais avançadas permitindo o mapeamento da doença.
  • 40% dos ginecologistas e 90% dos médicos de PMA não estão familiarizados com a doença.
  • Já se quebrou em Março deste ano o 1º dogma da Endometriose, que era dizer que gravidez era sinónimo de melhoria. Já se mostrou e comprovou que é errado, que há muitos casos de progressão violenta da doença durante a gravidez e pós gravidez.

O Dr. António Setúbal terminou referindo que acredita que mudanças positivas estão a acontecer “Fiquei muito impressionado e contente quando este ano no congresso mundial de Endometriose, em São Paulo no Brasil, participaram 1400 médicos, isto significa que algo está a mexer, que há mais curiosidade por parte da comunidade medica para com esta doença, há mais interesse, há preocupação e isto significa que estamos no bom caminho”.

Durante a sessão foram ainda respondidas algumas questões das quais salientamos as seguintes:

A Adenomiose difusa prejudica em que grau a fertilidade?
A Adenomiose é um problema de saúde pública em Endometriose que cada vez mais surge em pacientes jovens. Uma doente com Endometriose e Adenomiose é mais prejudicada em termos de sucesso de tratamento pois a Adenomiose diminui significativamente a taxa de implantação do embrião e aumenta significativamente a taxa de aborto.

Os agonistas utilizados antes de uma FIV ajudam a melhorar a Adenomiose?
A Adenomiose é sem dúvida ainda um campo dentro da Endometriose para muito estudo. No entanto, nem todos os casos de Adenomiose difusa são casos literais de útero disfuncional, depende do espessamento das paredes uterinas associado á Adenomiose. Ou seja uma mulher com achados de Adenomiose espalhados mas pequenos, finos, sem espessamentos das paredes uterinas e alterações do útero significativas não quer dizer que tenha um útero disfuncional. Depende sempre do grau que a Adenomiose já tem, da sua severidade e dos estragos que ela já provocou na cavidade uterina.

Como a Adenomiose está associada a um útero subdesenvolvido, isto pode significar uma gravidez de risco e um crescimento pequeno do feto?
Não necessariamente, há muitos fatores que têm de se ter em conta e cada caso é um caso, não se pode pressupor uma gravidez de risco só porque a mulher tem Adenomiose. Depende mesmo de um conjunto de fatores e de cada mulher.


Resta-nos agradecer aos dois médicos especialistas que se disponibilizaram para esta sessão de esclarecimento num Sábado de sol simpático; a toda a equipa da IVI que não só nos ajudou nesta organização, como nos recebeu de braços abertos nas suas instalações e a todas as participantes que se mostraram interessadas em aprender mais um pouco sobre este tema.

Para todos os que não puderam estar presente, esperamos que o resumo aqui deixado seja útil e permita esclarecer algumas das vossas dúvidas.

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