comorbilidades

A endometriose raramente surge de forma isolada. Muitas mulheres vivem também com outras comorbilidades que podem influenciar os sintomas, a intensidade da dor e a qualidade de vida. Estas condições podem envolver diferentes sistemas do organismo e contribuir para um quadro clínico mais complexo, tornando os diagnósticos e o tratamento mais desafiantes. Por isso, é fundamental que a endometriose seja encarada de forma global, através de uma abordagem multidisciplinar e individualizada, que considere não apenas a doença em si, mas a saúde da mulher como um todo.

ENDOMETRIOSE E DOENÇA
INFLAMATÓRIA DO INTESTINO

O que nos diz a evidência mais recente?

Dores abdominais recorrentes, alterações intestinais frequentes, um cansaço extremo que compromete o dia a dia e um longo percurso de anos de espera até se alcançar um diagnóstico conclusivo. Para uma vasta comunidade de pessoas que vivem com endometriose e/ou adenomiose, esta realidade é profundamente familiar e desgastante. No entanto, quando as manifestações gastrointestinais persistem no tempo ou pura e simplesmente não respondem às terapêuticas habituais prescritas para o foro ginecológico, impõe-se a necessidade de considerar a presença de outra condição a atuar em paralelo: uma Doença Inflamatória do Intestino (DII), destacando-se entre estas a Doença de Crohn ou a Colite Ulcerosa.

Com o propósito de compreender melhor esta complexa interseção clínica, um abrangente estudo de revisão de literatura publicado em 2024 debruçou-se sobre o estado atual da ciência médica em torno do cruzamento entre estas duas entidades patológicas (Fiorillo et al., 2024). As conclusões desta análise deixam em evidência contributos essenciais e mensagens-chave que merecem reflexão atenta, tanto por parte de quem vive com a doença como por parte dos próprios profissionais de saúde.

Em primeiro lugar, importa sublinhar que a evidência científica disponível até à data que suporta uma associação direta entre a endometriose e a DII continua a enfrentar limitações metodológicas muito significativas. O volume global de estudos especificamente dedicados a este tema permanece reduzido e grande parte das publicações existentes apoia-se em em amostragens de dimensão reduzida. Por essa razão, torna-se indispensável o desenvolvimento de novas investigações mais amplas, robustas e com maior poder estatístico, capazes de clarificar com rigor definitivo o alcance e a verdadeira extensão desta ligação.

Apesar de todas as restrições metodológicas apontadas pela literatura, os dados preliminares reunidos são unânimes ao alertar que a possibilidade de coexistência entre ambas as patologias é real e de forma alguma deve ser subestimada ou ignorada na prática clínica. Por um lado, doentes previamente diagnosticadas com DII que venham a manifestar dor pélvica e um quadro sintomático compatível necessitam de ser avaliadas com o máximo rigor para despiste de uma endometriose concomitante. Por outro lado, a classe ginecológica deve manter um elevado índice de suspeição e atenção perante o risco de DII em mulheres com endometriose que apresentem queixas do foro digestivo de maior gravidade. Em concreto, manifestações clínicas como o tenesmo (a sensação contínua e desconfortável de necessidade de evacuar) e as hemorragias retais não demonstram qualquer resposta ao tratamento hormonal direcionado para a endometriose, constituindo assim sinais de alarme que exigem um encaminhamento célere para investigação gastrenterológica detalhada.

Num prisma mais animador, um estudo multicêntrico publicado em 2026 veio acrescentar conclusões francamente tranquilizadoras no que concerne à influência e ao impacto mútuo exercido entre estas duas patologias (Guillo et al., 2026). De acordo com estes dados recentes, a presença de endometriose não afeta negativamente a evolução nem agrava o prognóstico da DII; de facto, os investigadores observaram que as doentes que viviam simultaneamente com ambas as condições manifestavam inclusivamente uma progressão menos severa da respetiva doença intestinal. Acresce a este dado o facto de o mesmo estudo demonstrar que a intervenção cirúrgica necessária para o tratamento da endometriose não aparenta comprometer ou prejudicar o curso clínico da DII, razão pela qual o ato operatório não deve ser protelado ou adiado exclusivamente com base no receio da condição intestinal subjacente. Paralelamente, e pela demonstrada capacidade que a endometriose detém de mimetizar quadros e queixas de natureza digestiva, a sua suspeição diagnóstica deve constar sempre do raciocínio clínico dos gastrenterologistas.

Na prática diária, conseguir delimitar com clareza onde terminam os efeitos próprios da endometriose e onde têm início as manifestações de uma DII permanece um dos mais intrincados desafios da medicina moderna. Por conseguinte, a correta definição e o reconhecimento rápido de sinais de alerta específicos, aliados a uma estreita e estruturada cooperação interdisciplinar entre as especialidades de ginecologia e de gastrenterologia, revelam-se instrumentos absolutamente determinantes. É este trabalho conjunto que permite travar atrasos no(s) diagnóstico(s), prevenir a prescrição de terapêuticas desadequadas e afastar o perigo de sobreposições farmacológicas.

Em última análise, adotar um olhar verdadeiramente integrado, abrangente e empático sobre a totalidade do corpo humano afirma-se como a única via possível para assegurar que nenhuma dor seja normalizada, minimizada ou deixada sem a devida resposta clínica fundamentada.

HIPERMOBILIDADE E ENDOMETRIOSE

A endometriose é uma doença inflamatória crónica que afeta milhões de mulheres com um elevado número de sintomas. Nos últimos anos, vários estudos têm vindo a demonstrar uma possível ligação entre a endometriose e a hipermobilidade articular, sugerindo que ambas podem partilhar mecanismos relacionados com alterações do tecido conjuntivo, inflamação e desequilíbrios hormonais.

A hipermobilidade caracteriza-se por uma maior elasticidade das articulações e tecidos, podendo causar dores musculares, instabilidade articular, fadiga e lesões frequentes. Em alguns casos, está associada a síndromes do tecido conjuntivo, como a Síndrome de Ehlers-Danlos hipermóvel.

Mulheres com hipermobilidade relatam frequentemente sintomas ginecológicos e pélvicos semelhantes aos observados na endometriose, incluindo dores menstruais intensas, dispareunia e dor pélvica crónica.

Estudos recentes apontam para uma prevalência significativa de hipermobilidade em mulheres com endometriose. Uma análise transversal publicada no Journal of Chemical Health Risks concluiu que cerca de 45% das mulheres com endometriose apresentavam hipermobilidade articular, sendo esta mais frequente nos estádios avançados da doença (Rani & Kumar, 2020). Os investigadores sugerem que a inflamação crónica e as alterações no colagénio podem contribuir para a fragilidade dos tecidos e aumento da laxidez (distensibilidade) articular.

POTS E ENDOMETRIOSE

A endometriose é uma doença complexa e, em algumas mulheres, pode coexistir com outras condições que afetam diferentes sistemas do organismo. Uma das áreas que tem despertado interesse é a possível relação entre endometriose e POTS – Síndrome de Taquicardia Postural Ortostática, uma forma de disautonomia.

O POTS caracteriza-se por um aumento significativo da frequência cardíaca quando a pessoa passa da posição deitada ou sentada para a posição de pé. Pode estar associado a sintomas como:

  • Tonturas ou sensação de desmaio
  • Palpitações
  • Fadiga
  • Dores de cabeça
  • Falta de ar
  • Brain fog ou dificuldade de concentração

Os estudos disponíveis ainda são poucos e apresentam resultados diferentes. Um estudo publicado em 2012 encontrou uma prevalência de endometriose superior entre mulheres com POTS: 20% das participantes com POTS tinham endometriose, comparativamente com 5% no grupo de controlo (Peggs et al., 2012).

Mais recentemente, um estudo realizado em mulheres jovens com POTS encontrou 8,9% com diagnóstico de endometriose, uma proporção que os autores consideraram semelhante à estimada na população geral. No entanto, verificaram que os sintomas de POTS frequentemente se agravavam antes ou durante a menstruação (Boris et al., 2025).

Em 2026, um novo estudo analisou 297 mulheres com endometriose confirmada por biópsia laparoscópica que tinham sido encaminhadas para um teste de inclinação (tilt table test). Destas, 26,2% apresentaram um resultado positivo para POTS (Simons et al., 2026).

Este último dado deve ser interpretado com cautela. Não significa que 26,2% das mulheres com endometriose tenham POTS. As participantes já tinham sido encaminhadas para realizar o teste, pelo que este grupo não representa necessariamente todas as mulheres com endometriose.

O estudo de 2026 encontrou uma maior frequência de diagnóstico de síndrome de Ehlers-Danlos entre as participantes com endometriose e POTS, levantando a possibilidade de existirem mecanismos relacionados com alterações do tecido conjuntivo e do sistema nervoso autónomo em alguns grupos de mulheres. No entanto, esta é ainda uma hipótese que precisa de ser investigada.

Também sabemos que as alterações hormonais ao longo do ciclo menstrual podem influenciar os sintomas de POTS. Alguns estudos referidos pelos investigadores encontraram agravamento dos sintomas antes ou durante a menstruação.

A ligação entre endometriose e POTS ainda não está estabelecida. Não sabemos se existe uma relação causal, se partilham determinados mecanismos biológicos ou se a associação encontrada em alguns estudos resulta, pelo menos em parte, da existência de outros fatores comuns. Mas os sinais existentes justificam mais investigação. E, sobretudo, reforçam a importância de não atribuir automaticamente todos os sintomas à endometriose.

Se uma mulher com endometriose apresenta tonturas frequentes, palpitações, sensação de desmaio, intolerância prolongada à posição de pé ou outros sintomas compatíveis com disautonomia, é importante que estes sejam comunicados ao profissional de saúde e devidamente avaliados.

A ciência ainda está a procurar respostas. E compreender estas possíveis associações poderá ajudar-nos, no futuro, a olhar para a endometriose de uma forma ainda mais completa. Porque ouvir todos os sintomas também é uma forma de cuidar.