A endometriose raramente surge de forma isolada. Muitas mulheres vivem também com outras comorbilidades que podem influenciar os sintomas, a intensidade da dor e a qualidade de vida. Estas condições podem envolver diferentes sistemas do organismo e contribuir para um quadro clínico mais complexo, tornando os diagnósticos e o tratamento mais desafiantes. Por isso, é fundamental que a endometriose seja encarada de forma global, através de uma abordagem multidisciplinar e individualizada, que considere não apenas a doença em si, mas a saúde da mulher como um todo.
A endometriose é uma doença inflamatória crónica que afeta milhões de mulheres com um elevado número de sintomas. Nos últimos anos, vários estudos têm vindo a demonstrar uma possível ligação entre a endometriose e a hipermobilidade articular, sugerindo que ambas podem partilhar mecanismos relacionados com alterações do tecido conjuntivo, inflamação e desequilíbrios hormonais.
A hipermobilidade caracteriza-se por uma maior elasticidade das articulações e tecidos, podendo causar dores musculares, instabilidade articular, fadiga e lesões frequentes. Em alguns casos, está associada a síndromes do tecido conjuntivo, como a Síndrome de Ehlers-Danlos hipermóvel.
Mulheres com hipermobilidade relatam frequentemente sintomas ginecológicos e pélvicos semelhantes aos observados na endometriose, incluindo dores menstruais intensas, dispareunia e dor pélvica crónica.
Estudos recentes apontam para uma prevalência significativa de hipermobilidade em mulheres com endometriose. Uma análise transversal publicada no Journal of Chemical Health Risks concluiu que cerca de 45% das mulheres com endometriose apresentavam hipermobilidade articular, sendo esta mais frequente nos estádios avançados da doença. Os investigadores sugerem que a inflamação crónica e as alterações no colagénio podem contribuir para a fragilidade dos tecidos e aumento da laxidez (distensibilidade) articular.
A endometriose é uma doença complexa e, em algumas mulheres, pode coexistir com outras condições que afetam diferentes sistemas do organismo. Uma das áreas que tem despertado interesse é a possível relação entre endometriose e POTS – Síndrome de Taquicardia Postural Ortostática, uma forma de disautonomia.
O POTS caracteriza-se por um aumento significativo da frequência cardíaca quando a pessoa passa da posição deitada ou sentada para a posição de pé. Pode estar associado a sintomas como:
Os estudos disponíveis ainda são poucos e apresentam resultados diferentes. Um estudo publicado em 2012 encontrou uma prevalência de endometriose superior entre mulheres com POTS: 20% das participantes com POTS tinham endometriose, comparativamente com 5% no grupo de controlo.
Mais recentemente, um estudo realizado em mulheres jovens com POTS encontrou 8,9% com diagnóstico de endometriose, uma proporção que os autores consideraram semelhante à estimada na população geral. No entanto, verificaram que os sintomas de POTS frequentemente se agravavam antes ou durante a menstruação.
Em 2026, um novo estudo analisou 297 mulheres com endometriose confirmada por biópsia laparoscópica que tinham sido encaminhadas para um teste de inclinação (tilt table test). Destas, 26,2% apresentaram um resultado positivo para POTS.
Este último dado deve ser interpretado com cautela. Não significa que 26,2% das mulheres com endometriose tenham POTS. As participantes já tinham sido encaminhadas para realizar o teste, pelo que este grupo não representa necessariamente todas as mulheres com endometriose.
O estudo de 2026 encontrou uma maior frequência de diagnóstico de síndrome de Ehlers-Danlos entre as participantes com endometriose e POTS, levantando a possibilidade de existirem mecanismos relacionados com alterações do tecido conjuntivo e do sistema nervoso autónomo em alguns grupos de mulheres. No entanto, esta é ainda uma hipótese que precisa de ser investigada.
Também sabemos que as alterações hormonais ao longo do ciclo menstrual podem influenciar os sintomas de POTS. Alguns estudos referidos pelos investigadores encontraram agravamento dos sintomas antes ou durante a menstruação.
A ligação entre endometriose e POTS ainda não está estabelecida. Não sabemos se existe uma relação causal, se partilham determinados mecanismos biológicos ou se a associação encontrada em alguns estudos resulta, pelo menos em parte, da existência de outros fatores comuns. Mas os sinais existentes justificam mais investigação. E, sobretudo, reforçam a importância de não atribuir automaticamente todos os sintomas à endometriose.
Se uma mulher com endometriose apresenta tonturas frequentes, palpitações, sensação de desmaio, intolerância prolongada à posição de pé ou outros sintomas compatíveis com disautonomia, é importante que estes sejam comunicados ao profissional de saúde e devidamente avaliados.
A ciência ainda está a procurar respostas. E compreender estas possíveis associações poderá ajudar-nos, no futuro, a olhar para a endometriose de uma forma ainda mais completa. Porque ouvir todos os sintomas também é uma forma de cuidar.